Doze Anos de Escravidão (Solomon Northup)

É muito complicado fazer uma análise em cima de memórias. Por mais que, para quem leia, algumas vezes elas possam dar a impressão de que são apenas ficção, a verdade é que a identificação com as personagens e com a história acaba aumentando pelo fato de pensarmos em como tudo aquilo aconteceu de verdade.

Também é bastante complicado falar sobre racismo, já que ainda há quem concorde que um “modo” de combatê-lo seja não falar sobre ele ou que é exagero. Eu penso o oposto. Para combater, é preciso falar cada vez mais sobre isso, e cada vez mais deixar com que as pessoas negras tenham o seu espaço e falem e representem por si só. Todos nós ainda somos muito racistas e não há nada de exagero nisso. Escravidão é outro tema tão delicado quanto, pois também acredita-se (erroneamente) que ela não exista mais. Ambos devem ser amplamente discutidos, e precisamos nos educar cada vez mais – por mais politizado ou “educado” que você possa parecer. Acredite, todos nós precisamos.

Falar sobre isso foi o que Solomon Northup fez, em 1853, ao escrever suas memórias após ter passado doze anos como escravo, mesmo tendo nascido um homem livre. Li as memórias em questão, Doze Anos de Escravidão (Twelve Years a Slave), após ter assistido o filme de mesmo nome, lançado no Brasil no começo do ano. Escolhi ler em português mesmo, e a edição da Penguin-Companhia está impecável, mas para quem quiser ler em inglês, a obra já está em domínio público.

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Solomon Northup nasceu em Saratoga, como um homem livre, já que tanto seu pai quanto sua mãe tornaram-se livres em algum momento de suas vidas. Tinha muitos conhecimentos e habilidades, pois já havia trabalhado em diversos segmentos e tocava o violino com muita maestria. Exatamente por tocar tão bem, foi alvo de dois homens, aparentemente interessados em seu talento musical, que o contrataram para fazer apresentações em um circo. No fim das contas, Solomon foi dopado e vendido como escravo em Nova Orleans, e a partir daí os seus anos de sofrimento deram início.

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Old Fort House, em Fort Edward, casa na qual Solomon e sua esposa viveram por alguns anos antes do rapto

A narrativa é feita em primeira pessoa, e a tradução de Carolina Chang foi muito efetiva em fazer o livro fluir muito bem. Outro ponto é a riqueza de detalhes por parte de Solomon: ele mostra um panorama quase completo da vida dos escravos do Sul dos Estados Unidos, antes da Guerra Civil, bem como funcionavam as negociações, o comércio real de compra e venda, o engenho das fazendas (explica com detalhes a rotina, o maquinário, etc.), além do tratamento recebido pelos escravos e as leis, que sempre estavam a favor do homem branco (a palavra de 100 negros não tinha efetividade alguma contra a palavra de um único branco).

Todos os horrores sofridos por ele e por todos os outros escravos com os quais ele interagiu não são poupados do leitor. Se com detalhes ele narrou toda a cena ao seu redor, também o fez em relação aos sofrimentos infligidos a ele. Isso torna o livro bastante forte, e já ouvi de muita gente que acha desnecessário tamanhos detalhes. Acredito, pelo contrário, que tudo o que foi escrito foi extremamente necessário, e que se muitas pessoas preferem não ver uma realidade e se enganar, aí a história é outra. Como disse Alexandre Dumas (pai), que era mulato e sofria hostilizações por sua cor no círculo de intelectuais na França,

Muito interessante, com efeito, senhorita – disse o substituto (Villefort) – pois não se trata de uma tragédia artificial, mas de um drama de verdade; não se trata de sofrimentos representados, são sofrimentos reais. Aquele homem que vemos ali, em vez de, ao cair do pano, começar no dia seguinte, volta para a prisão onde encontra o carrasco.
(O Conde de Monte Cristo, Capítulo 6)

Solomon, mais do que qualquer coisa, foi um sobrevivente, de fato, mas porque aprendeu a “jogar o jogo dos homens brancos”. Preservou sua identidade de negro livre e esperou por poucas oportunidades de libertação. Foi traído, viu o “lado bom” (que nunca me convencerá, mesmo tendo convencido ao próprio Solomon) de alguns poucos senhores de escravos, ajudou muitos de seus companheiros com açoites falsos, e foi até o que se pode chamar de limite da sanidade por ainda acreditar que poderia, de alguma maneira, rever a sua família. Sofrendo todo tipo de abuso físico e psicológico, Northup aguentou um martírio que nunca ficava mais leve, ou seja, os anos não suavizaram, apenas o ensinaram (e como é triste ler isso) como se comportar para levar menos açoitamentos e encontrar qualidade de vida em uma vida abaixo de qualquer qualidade que se pode imaginar.

Mesmo sabendo que a história tem um “final feliz”, você não consegue ficar totalmente contente. Enquanto comemora pela liberdade de Solomon, 12 anos depois, é impossível não sentir um gosto amargo quando este vai embora e é possível ler as emoções conflitantes de Patsey, escrava que trabalhou com ele por 10 anos na fazenda do desalmado Epps, e que protagoniza uma das cenas mais revoltantes da narrativa. Ao se despedir dele, ela diz:

Você me poupou de muitos açoites, Platt; que bom que vai ser livre – mas oh!, meu Deus, meu Deus! O que vai ser de mim?

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Ilustração da edição original do livro, quando Solomon é finalmente libertado da fazenda de Epps e da vida de escravidão

Enquanto 12 Anos de Escravidão tornou-se um bestseller na sua época de publicação, todos os acusados por Solomon foram libertados. Um deles até tentou acusá-lo de volta, mas não obteve efetividade. O que fica da obra, hoje, não é só a lembrança do que já aconteceu, porque esta não é uma realidade passada. Até 2013, estimava-se que 30 milhões de pessoas eram mantidas escravas em todo o mundo (cerca de 200 mil só no Brasil). O racismo mata milhares de pessoas todo ano no País, e é presente desde entrevistas de empregos até relações interpessoais.

As memórias de Solomon são autoexplicativas. Por isso fica difícil analisar o modo como a realidade foi exposta, porque ela é cruel, e tentar pontuar qualquer defeito não teria valor algum. E para quem achou o livro um “exagero”, fica a mensagem de Northup, que ao fechar o livro diz, entre outras coisas, que:

Não tenho comentários a fazer sobre o tema da Escravidão. Quem ler este livro poderá formar sua própria opinião sobre essa “peculiar instituição”. (…) Se falhei em algo, foi ao apresentar ao leitor de forma exagerada o lado positivo de tudo.

O autor: Solomon Northup foi um homem negro e livre, nascido em Nova Iorque, em 1808 (ou 1807). Era violinista e também realizava vários tipos de trabalhos sazonais, como corte de lenha, condução de jangadas, manutenção de canais, entre outros. Tinha uma esposa e três filhos. Foi raptado e vendido como escravo aos 33 anos de idade, e por 12 anos viveu e sofreu todos os horrores afligidos por ele nesta condição. Após a sua libertação, publicou suas memórias e passou a rodar os EUA contando a sua história (que virou até peça de teatro, na época).

Um filme de mesmo nome e dirigido pelo britânico Steve McQueen foi lançado no fim do ano passado. A adaptação respeita muito o livro, e todas as pequenas intervenções foram bastante justificáveis. As atuações dos intérpretes das três personagens principais do filme (Solomon, Patsey e Epps) também estão brilhantes. A maior “surpresa” que tive ao comparar o livro e a adaptação foi uma criação do roteirista John Ridley na cena final – que é arrebatadora. Ainda sim, recomendo a todos, sem exceção. Que leiam e que vejam.

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Michael Fassbender, Lupita Nyong’o e Chiwetel Ejiofor (respectivamente Epps, Patsey e Solomon) na adaptação de Steve McQueen

Outros links úteis (em inglês):

In Pittsburgh, visiting abolitionist Northup was suspected to be slave catcher
Welcome to the Town of Fort Edward
12 Years a Slave: the sad song of Solomon Northup
Twelve Years A Slave: Solomon Northup of Minerva

His Family (Ernest Poole)

Como falar de modernidade sobre o ponto de vista de uma personagem que é tudo, menos moderna? Pois foi isso que Ernest Poole fez em His Family, terceira obra publicada pelo autor, em 1917.

Escolhi esse livro a esmo, em uma lista do Goodreads. E descobri, para a minha surpresa em relação à falta de informações em português sobre o autor e a obra, que His Family foi o vencedor do primeiro prêmio Pulitzer de ficção no ano seguinte ao de sua publicação, em 1918. Baixei a versão para o Kindle no Project Gutenberg, pois a obra já está em domínio público, e mandei bala.

Talvez tenha sido proposital – o que eu não posso afirmar – mas Poole escolheu como protagonista de uma história sobre avanços industriais e tecnológicos, um homem já na terceira idade e convicto com o estilo de vida que sempre teve. Roger Gale olha com nostalgia para tudo o que passou e sua criação rural em New Hampshire, mas também com uma certa amargura para como a vida em Nova Iorque, antes e durante a Primeira Guerra Mundial, era ao mesmo tempo exagerada e tentadora. Mas o que realmente o faz pensar em como as coisas mudam, são cíclicas, e que por mais que seja ok viver à sua maneira, é inevitável que as coisas sigam em frente, são as suas três filhas. Cada uma delas mostra uma faceta sua, e não necessariamente uma que ele conheça.

Poole também fez uma leitura interessante da Nova Iorque pré-Primeira Guerra Mundial (a história começa em 1913 e termina em 1915). Não posso dizer o mesmo do durante. Até porque o objetivo do livro não é cobrir esse período, especificamente. Aqui ele fica como pano de fundo para mostrar um pouco sobre a imigração e para alavancar alguns acontecimentos, e por mais que a empresa da qual Roger é dono sofra e quase precise fechar por causa da Guerra, fica claro que ela não é um elemento de destaque.

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Manhattan aproximadamente na mesma época em que se passa a história

As mudanças que ocorrem no modo de Roger pensar e agir também foram muito bem criadas e conduzidas. Percebe-se que, aos poucos, com naturalidade, as características mais marcantes das filhas vão sendo reconhecidas por ele como suas. Mas tudo isto ocorre porque sua esposa, antes de morrer, pediu que ele continuasse a viver na vida de suas filhas (you will live on in our children’s lives). Dessa forma, ele começa a se identificar mais com as três mulheres, que por sinal, são três personagens muito fortes: uma é a filha revolucionária e moderna, que já passou dos 30 e não quer se casar, apenas trabalhar e cuidar de projetos sociais; a outra é a filha tradicional, que tem 5 filhos e é mais conservadora, e por último, a filha mais nova, libertina e que não liga para convenções.

Com um enredo simples (um homem viúvo e na terceira idade visualiza as mudanças ao seu redor e dentro de si através das filhas), a escrita de Poole ajuda muito a história a fluir bem. O autor mostra a sua visão de como o modo de vida está se tornando cada vez mais moderno não só através de personagens como Deborah (a filha revolucionária), Laura (a filha mais nova que não liga para a opinião de ninguém) e Johnny (um jovem e pobre judeu que tem Tuberculose Espinhal), mas também em seu estilo de escrita. Diferentemente de muitos escritores da época, ela é bem moderna e simplificada, com poucos traços de formalidade excessiva. O autor também insere, entre os dilemas da família Gale, a existência ou não de Deus, o papel da mulher na sociedade (principalmente com a figura feminista de Deborah) e os estereótipos das famílias endinheiradas e também dos imigrantes empobrecidos dos Estados Unidos no começo do século XX.

O maior mérito do autor é o de deixar esta mudança gradual e natural, e bem como prender a atenção do leitor do início ao fim, mesmo que a história não tenha a mais original das premissas ou algum segredo a ser revelado. Em dois anos, a vida de Gale muda muito, e se ele começa a história descrente da existência de Deus e não sabemos se ele muda de ideia, pelo menos temos a certeza de que ele passou a entender melhor o papel de um pai na vida de suas filhas, bem como o de uma pessoa tendo suas convicções testadas devido ao avanço acelerado da modernidade de seu país.

“I wonder if it won’t be the same with the children as it has been with us. No matter how long each one of them lives, won’t their lives feel to them unfinished like ours, only just beginning? I wonder how far they will go. And then their children will grow up and it will be the same with them. Unfinished lives. Oh, dearie, what children all of us are.”

“Me pergunto se com as crianças será a mesma coisa que foi para nós. Não importa o quanto cada uma delas viva, as suas vidas não lhes parecerão inacabadas, como as nossas, apenas começando? Me pergunto o quão longe elas irão. E então seus filhos irão crescer e será a mesma coisa com eles. Vidas inacabadas. Oh, querido, somos todos crianças.”

O autor: Ernest Poole foi um escritor e jornalista estadunidense nascido em Chicago. Trabalhou como correspondente dos EUA durante a Primeira Guerra e em outros conflitos na Europa e Ásia, e também era ativista social. Sua obra de maior destaque é The Harbor (O Porto), publicada dois anos antes de His Family (sem título no Brasil).

Outros links úteis (em inglês):

Top 10 Forgotten Pulitzer Prize-Winning Novels
TCR Forgotten Pulitzer Series: His Family (1918) by Ernest Poole
Museum of the City of New York

O retorno

Comecei nessa história de blog literário no fim de 2010, quando quis contar – de maneira engraçada e didática – um pouco mais sobre os livros clássicos que eu sempre amei ler, mas que as pessoas no geral sempre achavam um lixo/muito chatos/velhos/etc. O tempo passou e muita coisa aconteceu na minha vida, e provavelmente o mais relevante a ser dito é que eu acabei sem tempo para a blogosfera.

Alguns blogs eu passei a acompanhar de longe, mas fiquei bem afastada de tudo mesmo. Por que resolvi voltar, então? Porque já recuperei o meu ritmo natural de leitura, e agora a vontade de escrever novamente simplesmente surgiu.

Muita coisa mudou, mas O Conde de Monte Cristo ainda é a maior obra já escrita na história da humanidade. No entanto, continuo aceitando sugestões de livros que vocês acham que podem desbancá-lo ;] Mas não me responsabilizo por vocês nunca conseguirem me convencer.

Enfim, como fazia no outro blog, não vou comentar os livros que já li há tempos ou no intervalo em que fiquei sem postar. Só os “novos”.

É isso :]