Americanah (Chimamanda Ngozi Adichie)

“A opressão, na verdade, vem do próprio oprimido, que se diminui por pura falta de personalidade e autopiedade”

“Não sou racista, até tenho amigos negros”

“Feminismo é ridículo, queremos igualdade, e não que um gênero seja superior a outro”

“Não acho que a mulher sofra opressão, nos dias de hoje elas até chegam a cargos…”

“A minoria é minoria porque se faz de vítima…”

Quem nunca ouviu ou até mesmo proferiu essas frases?

Grande parte das pessoas que faz isso acredita, por sinal, que não está sendo racista, machista, elitista, etc., e trabalhar para a desconstrução dessas “opiniões/convicções” é uma tarefa bastante árdua.

Mas qual é a importância disso tudo para conversarmos sobre Americanah?

O extenso livro escrito por Chimamanda Ngozi Adichie aborda todas essas questões e ainda outras mais, ora nos acontecimentos diretos na vida de Ifemelu, a protagonista, ora com as pessoas ao seu redor, seja na Nigéria, Inglaterra, ou nos Estados Unidos.

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Chimamanda nos transporta, inicialmente, para os Estados Unidos atuais. Ifemelu é uma famosa blogueira nigeriana que escreve sobre a perspectiva de uma mulher negra e africana vivendo nos EUA. Enquanto temos um breve panorama de sua vida, logo notamos que há algo errado nela: um desconforto que, ironicamente, nenhum conforto proporcionado pelo país consegue cessar.

Não dissera apenas “bem-vinda”, mas “bem-vinda de volta“, como se soubesse que ela realmente estava de volta. Ifemelu agradeceu e, na escuridão cinzenta do fim de tarde, com o ar pesado de odores, sentiu a dor de uma emoção quase insuportável que não sabia definir. Era nostálgica e melancólica, uma linda tristeza pelas coisas que perdera e que jamais conheceria. (p. 418)

Mais de uma década depois de chegar à América do Norte, Ifemelu decide, então, voltar para a Nigéria, no auge da sua situação financeira. Mas antes disso, nós é que voltamos para o seu passado, a sua vida na cidade natal, Lagos, o seu relacionamento com Obinze (ou Teto), as perspectivas de vida que tinha antes de ir para os Estados Unidos, e como ela se virou depois que chegou ao país. Também vemos as amizades que ela faz, o seu caminho profissional e os relacionamentos que teve depois de deixar Obinze. A autora também alterna um pouco a narrativa e nos coloca a par da vida de Teto e de como o seu caminho como imigrante, mas na Inglaterra, teve um contorno completamente diferente do de Ifemelu.

O que fica claro desde o princípio é que Ifemelu e Obinze possuem vidas diferentes – a família dela, de classe média, enfrenta várias dificuldades alguns anos antes de ela sair da Nigéria, enquanto Obinze e sua mãe, uma professora universitária, vivem com mais conforto – mas que o baque realmente chega quando ela coloca os pés nos Estados Unidos e torna-se negra. Em seu país natal, havia outras preocupações em sua vida, como o fanatismo religioso de sua mãe, a apatia e falta de estímulo profissional de seu pai e o regime militar dos anos 90, mas ao chegar nos EUA, Ifem descobre e sente na pele o preconceito por ser uma mulher de cor. E é a partir daí que ela começa a analisar o comportamento e pensamento reais das pessoas em relação a isso, e não só as brancas: as negras também.

O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queríamos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesma como negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. (p. 315)

Para arquitetar as 500 páginas da história de Ifemelu, Chimamanda faz uma mescla muito bem articulada entre a história de vida da protagonista, suas dificuldades, alguns pontos de vista de Obinze e os posts do blog (que se chama Raceteenth or Various Observations About American Blacks (Those Formerly Known as Negroes) by a Non-American Black, em português: “Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana”). As análises feitas por Ifem ocorrem através de diálogos simples em festas, reuniões na casa de amigos, no trabalho, na rua, e o livro todo tem esse sentimento familiar – você deseja ser amigo de Ifemelu e também comentar em seu blog ou compartilhar o seu texto com os seus amigos.

É importante notar que o livro não tem um tom educacional descarado. Não é um manifesto ou nada do gênero. Enquanto a vida de Ifemelu se mistura com a da própria Chimamanda, as mensagens contidas na obra (e explicitamente o blog dentro dela) tem como alvo tanto o negro americano, quanto o negro não-americano e o branco. As reflexões de Ifem vão desde as semelhanças e diferenças entre negros e hispânicos nos Estados Unidos, até o comportamento de exclusão da culpa e auto-defesa do homem branco, que, em sua maioria, não assume seus privilégios por achar que como não é diretamente culpado pela exclusão das pessoas de cor da sociedade (seja ela parcial, ou total, no passado ou no presente), também pode se considerar oprimido em uma esfera parecida ou não acredita que haja opressão em relação a elas – voltamos para a frase “o racismo é coisa que vem só de você”, “o racismo não existe mais”, “tenho até colegas de trabalho negros com bons salários/cargos”.

Tudo isso nos leva às pérolas: “não vou ouvir porque na minha vida isso não acontece, e se isso não acontece comigo, não acontece com ninguém”, “você enxerga racismo em tudo”. Chimamanda mostra que racismo não é exagero, é real, e acontece o tempo todo, desde você pedir para a sua amiga negra alisar os cabelos, dizer que uma determinada cor não combina com o seu tom de pele ou dizer “para um negro, ele é bonito”, até mudar de calçada quando vê um homem negro à noite, culpabilizar o próprio negro pela existência do racismo e não aceitar uma pessoa negra para uma vaga de emprego por ela ser negra – mas na sua cabeça, inventar várias outras desculpas para o seu desconforto.

[Para outros negros americanos] Se estiver falando com uma pessoa que não for negra sobre alguma coisa racista que aconteceu com você, tome cuidado para não ser amargo. Não reclame. Diga que perdoou. Se for possível, conte a história de um jeito engraçado. E, principalmente, não demonstre raiva. Os negros não devem ter raiva do racismo. Se tiverem, ninguém vai sentir pena deles. Isso se aplica apenas a liberais brancos, aliás. Nem se incomode em falar de alguma coisa racista que aconteceu com você para um conservador branco. Porque esse conservador vai dizer que você é o verdadeiro racista e sua boca vai ficar aberta de espanto. (p. 241)

E voltando ao desconforto, a trajetória de Ifemelu fora da Nigéria é cheia de conquistas, felicidade, mas também é permeada por um estranhamento e deslocamento que a acompanham por mais de uma década. A sua ida aos EUA proporcionou a ela uma nova visão de si mesma, mas mesmo quando tudo parece bem, as coisas na verdade não estão. Aos poucos vamos entendendo o que Ifem realmente sente (algo que antes nem ela sabia dizer o que era), e torcemos pela sua felicidade, para que ela finalmente encontre o seu lugar e respire aliviada. Muitos dizem que nós é que tornamos um lugar o nosso lar, mas nem sempre isso é aplicável.

Ela já sabe a resposta, mas o caminho até ela é árduo, e é inevitável torcer por ela, que assim como nós, é cheia de defeitos (alguns bem destacados no livro), mas que apenas quer ser feliz. O livro nos deixa, como lição, que o que mais queremos é que outras pessoas compreendam que ainda temos muito o que aprender sobre nosso próprios privilégios e o modo como enxergamos os que estão ao nosso redor. Americanah é uma leitura que incomoda da melhor maneira possível e não falha em nos fazer sair da “zona de conforto de pensamento”, na qual usamos a negação de forma tão obstinada que às vezes só um soco no estômago consegue abrir nossos olhos.

Chimamanda Ngozi Adichie é uma premiada escritora nigeriana que vive entre os Estados Unidos e seu país natal. Ela escreve poemas, romances e contos e além de Americanah, seu mais recente livro, ela escreveu outros três romances (dois deles também publicados no Brasil).

  • No livro, quando Ifemelu finalmente volta para a Nigéria, ela abandona o Raceteenth e inicialmente trabalha em uma revista feminina do país, mas descontente com os rumos da publicação, decide voltar a escrever um blog, dessa vez sobre a vida em Lagos (The Small Redemptions of Lagos/”As Pequenas Redenções de Lagos”). Chimamanda mantém este blog ativo aqui. Há até uma coluna de Ifemelu e Teto (Ifem&Ceiling), entre outras ótimas publicações. Vale a pena conferir.

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