Olhe Para Mim (Jennifer Egan)

O que realmente define uma pessoa?

Há diversos aspectos que podem ser levados em consideração, é claro, e alguns podem ser físicos, enquanto outros são meramente psicológicos. O que não pode ser negado, no entanto, é que em muitos casos, a maneira como nos vemos por fora influencia como somos por dentro de uma maneira mais devastadora do que podemos imaginar.

Em Olhe Para Mim (“Look at Me”, no original, em inglês), livro publicado em 2001 por Jennifer Egan, acompanhamos a mudança na vida de Charlotte Swenson, uma modelo que, após um acidente automobilístico, é submetida a uma cirurgia plástica radical para recuperar os danos em seu rosto – e fica irreconhecível.

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Charlotte Swenson é uma modelo que já passou dos trinta anos, mas que ainda finge estar na casa dos vinte. Sua carreira não é exatamente o que chamaria de promissora – começou aos trancos e barrancos, ficou ótima, e depois começou a declinar. Uma grande adepta da mania de contar mentiras, ela dificilmente acreditaria que acabaria sofrendo um acidente de carro e que seu rosto ficaria tão destruído que apenas uma série de cirurgias (e 80 parafusos de titânio) poderiam devolver alguma forma ao seu rosto.

Engana-se, no entanto, quem pensa que os problemas começaram pelo fato de Charlotte ter ficado feia ou deformada. A milagrosa cirurgia deixou o seu rosto belo, depois de todo o processo de cicatrização. Mas o problema era que as pessoas não a reconheciam mais. E não apenas elas, mas a própria Charlotte começou a ter problemas com o seu rosto, agora irreconhecível até para ela – e com as consequências de repentinamente perder parte de sua identidade.

Passei uma hora inteira olhando pelo círculo de luz leitosa em volta do espelho do banheiro. Segurei fotos antigas ao lado da minha imagem e tentei compará-las. Mas só descobri que, além de não saber que aspecto eu tinha agora, eu jamais soubera. As fotos antigas não ajudaram. Como todas as boas fotos, elas escondiam a verdade. (p. 41)

Para quem já está familiarizado com o estilo de Jennifer Egan, é fácil presumir que a história não giraria apenas em torno da protagonista. Egan cria outras personagens que podem ou não estar ligadas ao destino de Charlotte: Michael West, um misterioso professor de matemática, Moose, irmão de uma amiga de infância de Char e gênio incompreendido e uma segunda Charlotte, filha desta mesma amiga de infância. As suas histórias, em princípio distintas, vão aos poucos criando forma e se unindo de forma bastante natural e inteligente – uma característica mais do que marcante da escrita da autora.

Ambas as Charlottes são diferentes e ao mesmo tempo possuem muitas similaridades: não estão confortáveis com o modo como são vistas pelo mundo, e em partes, não sabem exatamente como se encaixar na sociedade. Egan é mestre em cutucar vários pontos sobre como a mídia tem influencia não somente sobre quais devem ser os modelos de inspiração dos consumidores comuns, mas como isso afeta os homens e mulheres que perpetuam e são personificados e personificadas como tais modelos. Charlotte possui uma base de clichês que todos conhecemos (drogas, álcool, glamour e favores sexuais em troca de posições ou apenas para evitar conflitos), mas os seus questionamentos vão além deles, e esse é um triunfo da narrativa: inicialmente, ela não nos deixa no lugar-comum.

Eu guardava as verdades que possuía porque informação não era uma coisa – era incolor, inodora, amorfa, e, portanto, indestrutível. Não havia como corrigi-la ou anulá-la, não havia como impedir a sua proliferação. Dizer um segredo a alguém era como guardar plutônio dentro de uma embalagem de sanduíche. A informação inevitavelmente duraria mais que a amizade ou o amor ou a confiança em que você a colocara. E aí você a teria revelado. (p. 79)

A autora arquiteta muito bem a desconstrução e subsequente construção dos cacos da personalidade das duas protagonistas: inicialmente em extremidades opostas, encontram-se, separam-se e vão aos poucos perdendo características e ganhando outras, até chegarem a um ápice no qual se reencontram, já completamente mudadas. Enquanto a mais velha tenta reencontrar um caminho profissional, agora já obsoleta e estranha para o mundo fashion, a mais nova, após perder a virgindade, tenta descobrir porque se sente tão deslocada em seu pequeno mundo, com a escola e garotos.

Mas não para por aí: Jennifer Egan, além de ter um estilo de escrita experimental, também é visionária não apenas no modo como articula as palavras no papel, mas também na arte de prever tendências, especialmente as tecnológicas. O livro começou a ser escrito em 1995, e só terminou no início de 2001; em uma das desesperadas tentativas de Oscar (o agente de Charlotte) para reinseri-la no mercado de trabalho, a autora nos apresenta a um homem com ideias de construir uma base de dados pela internet, na qual pessoas comuns, divididas em vários níveis de interesse, fariam posts sobre seu cotidiano, com fotos ou qualquer outra coisa que parecesse interessante para atrair visualizações (familiar, não?).

Outra de suas “previsões”, a qual pode ser considerada até assustadora, é a de uma das personagens (cujo nome não revelarei para não estragar a leitura) e o terrorismo. A personagem em questão planeja fazer algo grande para dar aos Estados Unidos (cuja população ela chama de conspiradores) sua lição. Egan acerta na americanização dela, que a princípio se recusa até mesmo a comer no Mc Donald’s, mas que logo se vê inconscientemente presa nos sonhos americanos, mesmo com cada gota de suor de seu corpo negando as mudanças e se forçando a permanecer imutável.

No entanto, um ponto falho foi exatamente a caracterização dessa personagem. No livro ela tem a função de ser mais especial do que a própria Charlotte adulta, e talvez essa pretensão tenha sido bem recebida nos Estados Unidos, mas para mim ela perdeu toda a magia quando da descoberta de suas reais motivações. Se por um lado a americanização foi feita com maestria, por outro, as suas próprias motivações caíram na ideia deturpada que muitos estadunidenses possuem em relação à cultura do Islã/oriental. Egan afirma, no posfácio (desnecessário), como ela a teria construído diferente caso tivesse publicado o livro depois dos atentados do 11 de setembro, e sobre todo o cuidado que teve para que essa personagem parecesse crível. O seu erro, no entanto, foi estigmatizá-la como apenas um muçulmano extremista genial, mas que apesar de toda a genialidade, sucumbiu à superioridade dos EUA mascarada como inferior.

Alimente as pessoas com um bocado de algo que elas desejarão pelo resto da vida e você não precisará lutar contra elas. Elas se entregarão. Essa era a conspiração americana. (p. 226)

É nesse momento que a história toda começa a perder um pouco do sabor e da genialidade: ao apontar os diversos defeitos da sua nação, Egan repentinamente os faz parecer melhores, mesmo como defeitos; “entre os piores, ainda somos os melhores”. Somando essa decepção temos o fato de que Moose, o tio da Charlotte mais nova e uma das melhores personagens da história, possui um crescendo tão empolgante que a autora claramente não soube como terminá-lo. Em um determinado momento, você chega a torcer pela morte dele, ou qualquer outra tragédia, só para que algo realmente surpreendente aconteça, tamanha tensão é criada, mas acaba se decepcionando com o clímax extremamente simplório.

Talvez muitos digam que “a vida não é tudo isso”, “ela é realista”, e considerando por este último ponto, podem defender a autora, mas aparentemente essa é uma tendência particular, já que o outro livro que li dela, o aclamado A Visita Cruel do Tempo, possui o mesmo “problema”. Escrita experimental fantástica, ótimo background e desenvolvimento das personagens, mas finais que nunca conseguem se equiparar com as expectativas iniciais. Não posso dizer que a leitura não vale a pena, pois Egan sabe mesmo escrever, e evoca questões muito pertinentes, mas no fim, não consigo ficar satisfeita com os desfechos.

Ainda tento defendê-la, mesmo com uma dupla experiência “negativa” com seus finais, fingindo que acredito que parte da simplicidade ou monotonia pode ter sido proposital, pelo menos em Olhe Para Mim. Por quê? Lendo o excerto de Ulisses, de James Joyce, com a qual ela abre o livro, dá até para se sentir um pouco ingênuo esperando outra coisa.

Caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, irmãos do amor. Mas sempre encontrando-nos a nós mesmos.

Jennifer Egan é uma escritora estadunidense. Com um perfil inovador, é autora de quatro romances e diversos contos e artigos. Tem três romances publicados no Brasil, além do e-book de A Caixa Preta, conto publicado em forma de posts no Twitter.

  • A minha edição é a da Intrínseca, com tradução de Adalgisa Campos da Silva.
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4 thoughts on “Olhe Para Mim (Jennifer Egan)

  1. Nossa, no início eu tava curtindo a ideia da história e aí de repente me entra terrorismo… Não imagino em que contexto isso foi encaixado na história, bem bizarro. E eu nunca tinha visto seu blog 😀 frequentarei =*

    • Mas fica tranquila que o livro não gira em torno disso hahaha! E a Egan sabe encaixar as coisas certinhas sempre, pena que os fins são um cocô.
      E o blog é véio mas vou tentar ressuscitá-lo de vez hihi 😀 Beijos, Vi!

  2. Autores americanos tirando o c* da nação da reta, como sempre. Fico muito brochada com um final de livro ruim, mas entendo o fato de vc “defender” a autora. Já aconteceu comigo da evolução de um livro ser muito melhor que o desfecho dele. Se não me engano foi com Paper Towns do John Green.

    Apesar de tudo, fiquei curiosa pra ler algo dela. Qual é vc indica? Esse ou o A visita cruel do tempo?

    Bjs!

    • Pois é! É engraçado porque há uma crítica tão forte em relação aos EUA, mas aí do nada você coloca uma personagem estrangeira e ela simplesmente acaba “se rendendo” porque parece inevitável, né? risos.

      E eu indico A Visita! Talvez você até goste mais do final do que eu, mas tipo, A Visita é sensacional, muitas histórias entrelaçadas, e o capítulo em power point é simplesmente genial. Comece por esse! 😀

      Beijos, Bru!

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