The Turmoil (Booth Tarkington)

Sempre que saio da capital de São Paulo e vou para qualquer outro lugar que tenha uma paisagem mais verde, fico impressionada. Não por nunca ter visto nada verde, mas pelo fato de estar sempre rodeada por casas, prédios e pela atmosfera cinzenta da cidade. Como se a poluição já fizesse parte do visual cotidiano – e tivesse até criado alguma beleza. Aí quando vejo algo diferente fica um certo amargor na garganta por pensar em como um cenário poluído é o nosso lar-doce-lar e no geral nem reparamos mais na camada cinza que encobre o céu.

The Turmoil disserta justamente sobre isso: uma cidade fictícia que em poucos anos ficou encoberta por muita poluição devido aos avanços industriais. Publicada em 1918 por Booth Tarkington, a história gira em torno de duas famílias distintas na cidade poluída: os Sheridan (adoro esse nome!) e os Vertrees. A primeira família possui os novos ricos do local, enquanto a segunda não tem um tostão, apenas um nome tradicional. As suas vidas se unem pelo fato de serem vizinhos, e a partir daí toda a história é desenvolvida.

Os dois pilares da história são Bibbs Sheridan e Mary Vertrees. Bibbs é um dos herdeiros de Jim Sheridan, o patriarca da família e responsável por construir toda a sua riquíssima propriedade. Mas ao contrário dos outros dois irmãos, que seguem o ritmo trabalhador e ambicioso do pai, Bibbs possui uma saúde frágil e aspira uma vida de escritor. É constantemente visto como uma decepção por toda a família, e terá uma luta grande pela frente para conseguir satisfazer a todos em sua casa. Já Mary tenta esconder a pobreza de sua família, e tendo uma personalidade forte, acabará conquistando muitas pessoas – mesmo vivendo com essa dualidade.

Tarkington claramente é imparcial quanto à modernidade e suas consequências. Mostra o tempo todo que o ritmo frenético com o qual as pessoas agora realizavam seus trabalhos era extremamente prejudicial, já “prevendo” que no futuro as coisas piorariam. Uma das passagens mais interessantes está bem no começo do livro, quando há um questionamento em relação às cinzas que caem constantemente sobre a cidade:

“Smoke’s what brings your husbands’ money home on Saturday night,” he told them, jovially. “Smoke may hurt your little shrubberies in the front yard some, but it’s the catarrhal climate and the adenoids that starts your chuldern coughing. Smoke makes the climate better. Smoke means good health: it makes the people wash more. They have to wash so much they wash off the microbes. You go home and ask your husbands what smoke puts in their pockets out o’ the pay-roll—and you’ll come around next time to get me to turn out more smoke instead o’ chokin’ it off!”

“A fumaça é o que traz o dinheiro dos seus maridos para casa no sábado à noite”, ele disse a elas, alegremente. “A fumaça pode machucar seus pequenos arbustos na varanda, mas é o clima catarrento e as adenoides que fazem com que seus pequeninos filhos comecem a tossir. A fumaça melhora o clima. Fumaça significa uma saúde boa: faz as pessoas tomarem mais banho. Elas precisam tomar tanto banho que os micróbios são lavados do corpo. Volte para casa e pergunte aos seus maridos o que a fumaça coloca em seus bolsos e da próxima vez voltarão para pedir que eu faça mais fumaça para vocês ao invés de quererem que ela suma!”

Bibbs é, de longe, a personagem mais interessante que Tarkington criou para a história: ele é uma amostra de como o ser humano pode surpreender. Inicialmente doente (“dos nervos”, coisa inadmissível para o seu pai), aos poucos e com determinação (ou pressão?), faz com que a sua vida dê alguns turnos, pegando de surpresa a maioria dos leitores que sempre imaginam o mesmo desfecho para filhos “rebeldes” de pais poderosos.

“Bibbs Sheridan was a musing sort of boy, poor in health, and considered the failure–the “odd one”–of the family.”

“Bibbs Sheridan era um tipo curioso de garoto, tinha a saúde frágil e era considerado o fracasso (o “esquisito”) da família.”

Mary também mostra que não é o que aparenta, e ambas as personagens, que são muito fortes, nos guiam por alguns caminhos, mas no final decidem “por si só” os seus destinos – por mais que isso possa ou não agradar a quem os testemunha.

The Turmoil, em inglês, significa tumulto, agitação, e o título limita-se a descrever o mundo no qual as personagens vivem, e não necessariamente seus conflitos internos (que existem, mas não tão tumultuosos). Talvez o ponto principal da obra seja o fato de que o autor narra os dilemas e problemas das personagens, mas não apresenta uma solução para a questão central (a poluição). Pelo contrário, ele mostra como a conduta e hábitos das pessoas apenas seguiram o fluxo da fumaça e tornaram-se cada vez mais taciturnos, centrados e obscuros. A semelhança entre essa cidade e as grandes metrópoles de hoje, quase 100 anos após a publicação do livro, é assustadora, e é isso o que torna a leitura do livro extremamente rica: indo além de uma simples e superficial amostra histórica e contextual dos Estados Unidos do começo do século passado.

Esta não é a melhor obra de Tarkington dentro da sua “trilogia” sobre o crescimento desmedido das grandes metrópoles nos Estados Unidos – este livro é o primeiro. Ele inclusive tem um aspecto experimental, especialmente quando comparado com o segundo, pois é mais simples e menos tridimensional. Mas o livro flui bem e não é excessivamente apegado aos detalhes. No entanto, também está longe de ser superficial, mas ainda tem pormenores suficientes para que o leitor se identifique com o drama das personagens, mesmo com alguns clichês que poderiam ter sido evitados.

O autor: Newton Booth Tarkington foi um escritor e dramaturgo estadunidense nascido em 1869. Foi muito popular durante os anos que escreveu, e além de vários de seus livros terem sido best-sellers, também ganhou dois Pullitzers. Sua obra mais famosa é Alice Adams.

His Family (Ernest Poole)

Como falar de modernidade sobre o ponto de vista de uma personagem que é tudo, menos moderna? Pois foi isso que Ernest Poole fez em His Family, terceira obra publicada pelo autor, em 1917.

Escolhi esse livro a esmo, em uma lista do Goodreads. E descobri, para a minha surpresa em relação à falta de informações em português sobre o autor e a obra, que His Family foi o vencedor do primeiro prêmio Pulitzer de ficção no ano seguinte ao de sua publicação, em 1918. Baixei a versão para o Kindle no Project Gutenberg, pois a obra já está em domínio público, e mandei bala.

Talvez tenha sido proposital – o que eu não posso afirmar – mas Poole escolheu como protagonista de uma história sobre avanços industriais e tecnológicos, um homem já na terceira idade e convicto com o estilo de vida que sempre teve. Roger Gale olha com nostalgia para tudo o que passou e sua criação rural em New Hampshire, mas também com uma certa amargura para como a vida em Nova Iorque, antes e durante a Primeira Guerra Mundial, era ao mesmo tempo exagerada e tentadora. Mas o que realmente o faz pensar em como as coisas mudam, são cíclicas, e que por mais que seja ok viver à sua maneira, é inevitável que as coisas sigam em frente, são as suas três filhas. Cada uma delas mostra uma faceta sua, e não necessariamente uma que ele conheça.

Poole também fez uma leitura interessante da Nova Iorque pré-Primeira Guerra Mundial (a história começa em 1913 e termina em 1915). Não posso dizer o mesmo do durante. Até porque o objetivo do livro não é cobrir esse período, especificamente. Aqui ele fica como pano de fundo para mostrar um pouco sobre a imigração e para alavancar alguns acontecimentos, e por mais que a empresa da qual Roger é dono sofra e quase precise fechar por causa da Guerra, fica claro que ela não é um elemento de destaque.

MNY63338
Manhattan aproximadamente na mesma época em que se passa a história

As mudanças que ocorrem no modo de Roger pensar e agir também foram muito bem criadas e conduzidas. Percebe-se que, aos poucos, com naturalidade, as características mais marcantes das filhas vão sendo reconhecidas por ele como suas. Mas tudo isto ocorre porque sua esposa, antes de morrer, pediu que ele continuasse a viver na vida de suas filhas (you will live on in our children’s lives). Dessa forma, ele começa a se identificar mais com as três mulheres, que por sinal, são três personagens muito fortes: uma é a filha revolucionária e moderna, que já passou dos 30 e não quer se casar, apenas trabalhar e cuidar de projetos sociais; a outra é a filha tradicional, que tem 5 filhos e é mais conservadora, e por último, a filha mais nova, libertina e que não liga para convenções.

Com um enredo simples (um homem viúvo e na terceira idade visualiza as mudanças ao seu redor e dentro de si através das filhas), a escrita de Poole ajuda muito a história a fluir bem. O autor mostra a sua visão de como o modo de vida está se tornando cada vez mais moderno não só através de personagens como Deborah (a filha revolucionária), Laura (a filha mais nova que não liga para a opinião de ninguém) e Johnny (um jovem e pobre judeu que tem Tuberculose Espinhal), mas também em seu estilo de escrita. Diferentemente de muitos escritores da época, ela é bem moderna e simplificada, com poucos traços de formalidade excessiva. O autor também insere, entre os dilemas da família Gale, a existência ou não de Deus, o papel da mulher na sociedade (principalmente com a figura feminista de Deborah) e os estereótipos das famílias endinheiradas e também dos imigrantes empobrecidos dos Estados Unidos no começo do século XX.

O maior mérito do autor é o de deixar esta mudança gradual e natural, e bem como prender a atenção do leitor do início ao fim, mesmo que a história não tenha a mais original das premissas ou algum segredo a ser revelado. Em dois anos, a vida de Gale muda muito, e se ele começa a história descrente da existência de Deus e não sabemos se ele muda de ideia, pelo menos temos a certeza de que ele passou a entender melhor o papel de um pai na vida de suas filhas, bem como o de uma pessoa tendo suas convicções testadas devido ao avanço acelerado da modernidade de seu país.

“I wonder if it won’t be the same with the children as it has been with us. No matter how long each one of them lives, won’t their lives feel to them unfinished like ours, only just beginning? I wonder how far they will go. And then their children will grow up and it will be the same with them. Unfinished lives. Oh, dearie, what children all of us are.”

“Me pergunto se com as crianças será a mesma coisa que foi para nós. Não importa o quanto cada uma delas viva, as suas vidas não lhes parecerão inacabadas, como as nossas, apenas começando? Me pergunto o quão longe elas irão. E então seus filhos irão crescer e será a mesma coisa com eles. Vidas inacabadas. Oh, querido, somos todos crianças.”

O autor: Ernest Poole foi um escritor e jornalista estadunidense nascido em Chicago. Trabalhou como correspondente dos EUA durante a Primeira Guerra e em outros conflitos na Europa e Ásia, e também era ativista social. Sua obra de maior destaque é The Harbor (O Porto), publicada dois anos antes de His Family (sem título no Brasil).

Outros links úteis (em inglês):

Top 10 Forgotten Pulitzer Prize-Winning Novels
TCR Forgotten Pulitzer Series: His Family (1918) by Ernest Poole
Museum of the City of New York