Mentirosos (E. Lockhart)

Todos nós temos segredos da nossa adolescência e infância. Alguns são bem bobos, e outros mais pesados, mas no geral tínhamos certo receio de que os adultos acabassem descobrindo – e só quando crescemos é que nos damos conta de que grande parte das coisas era mesmo muito boba, como ter roubado alguma comida da casa de um parente, ter quebrado algo e escondido por anos, entre outras.

No entanto, há também muitas mentiras que, quando contadas incessantemente, tornam-se verdades. Ou sonhos que se tornam pesadelos. Em Mentirosos (“We Were Liars”, em inglês), E. Lockhart utiliza uma prosa delicada e irônica e com uma excelente cadência para transformar o seu texto suave e ingênuo em algo maior e com mais profundidade. Essa transição é a sua maior vitória em relação à narrativa.

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Os Sinclair são uma tradicional família estadunidense. Na teoria, possuem muito dinheiro e terras, incluindo uma ilha particular em Massachusetts, chamada Ilha Beechwood. No local, há quatro mansões: uma para o patriarca da família, Harris Sinclair e as outras três para cada uma de suas três filhas. Cadence Sinclair é a mais velha entre todos os netos de Harris, e por isso, a principal herdeira. A garota também faz parte de um grupo de quatro pessoas, chamado Mentirosos. Os outros integrantes são dois de seus primos, Mirren e Johnny, e o sobrinho do namorado da mãe de Johnny, Gat.

Uma das particularidades dos Mentirosos é o fato de que eles basicamente se encontram apenas uma vez por ano, quando toda a família se reúne para passar as férias em Beechwood. A “tradição” existe desde que são crianças, e Cadence vai nos contando algumas coisas que aconteceram em cada verão, no lugar. Inicialmente, você não espera nada das histórias (nada mesmo), mas conforme a narrativa se estende, coisas vão acontecendo, e quanto mais você procura por respostas, mais vai se desenrolando em mistérios.

Bem-vindo à bela família Sinclair.
Ninguém é criminoso.
Ninguém é viciado.
Ninguém é um fracasso.
Os Sinclair são atléticos, altos e lindos. Somos democratas tradicionais e ricos. Nosso sorriso é largo, temos queixo quadrado e sacamos forte no tênis. (p. 13)

E por falar em mistério, esse é um cuidado com o qual qualquer pessoa que converse sobre o livro precisa ter. Tentar esmiuçar pormenores para quem ainda não leu estragaria a experiência de leitura, já que este é o tipo de obra que, caso a pessoa conheça o final, não conseguirá ler nenhuma das partes da forma mais desejável. Se por um lado, esse tipo de segredo tem aquele efeito de surpresa no final, E. Lockhart só acertou porque o livro é muito pequeno. Arrastar uma situação que apenas começa a se desenrolar depois da metade do livro só é aceitável neste caso exatamente devido ao fato de a leitura ser bem rápida.

A obra em si não é complexa, apesar de Cadence, a personagem principal, ser bastante tridimensional. A sua ironia parece birra de criança no começo, e em alguns momentos ela oscila tanto que parece ser bastante real – ou que ela realmente acredita nisso, mesmo tentando demonstrar que não. A sua relação conturbada com os pais e com Gat parece bastante confusa no começo, e o livro evolui em tudo junto com a personagem. Apesar disso, Cadence não existe para ser amada ou para que você a admire. Essa função pertence à Gat, o garoto de origem indiana que levanta questões avançadas demais para alguém de sua idade.

A visão inicial que temos dos Sinclair é a de que são todos ricos e fúteis, e o estereótipo que vem com essa união de fatores às vezes incomoda um pouco. Gat é o único que destoa em tudo da família, mesmo das mais bem intencionadas e doces crianças, outros primos que não são incluídos no grupo dos Mentirosos. Conforme a história avança, só vemos que os adultos são, na verdade, gananciosos, mentirosos, manipuladores e incrivelmente infelizes, e que Gat não é o único de olhos abertos no livro, mas sim o único que não tem motivos para fechá-los, já que é apenas um menino e não tem nada a ganhar/perder com os seus questionamentos.

Estou me perguntando como podemos dizer que o avô de vocês é dono desta terra. Não legalmente, mas de fato. (…) O que estou perguntando é: como podemos dizer que a terra pertence a qualquer pessoa? – Gat fez um gesto englobando a areia, o mar, o céu. (pgs. 29-30)

E. Lockhart divide a narrativa entre contos de fadas criados por Cadence – os quais claramente falam sobre a sua família – e a própria contando a história de cada verão, em primeira pessoa e com alguns trechos sem o refinamento de um texto, mas com improviso e repetições poéticas. Compartilhamos os seus medos, a confusão de sentimentos, a descoberta do amor, depressão e o fato de que, como uma Sinclair, o seu dever é estar sempre linda, feliz e contida, o que a torna uma mentirosa, independentemente do grupo. As pequenas mentiras que conta – que não são as do tipo compulsiva, e sim as do tipo necessárias para garantir privilégios/proteger as aparências – parecem sempre ter proporções menores, mas quando acumuladas, tornam-se progressivamente um peso insuportável.

De fato, progressão é o que define bem o livro. Ele começa infantil, irritante, com sentimentos soltos e atos sem explicação; o fato de Cadence ter ficado doente e ter passado dois anos sem ir à Beechwood e, por consequência, não ter procurado nenhum dos Mentirosos tira a credibilidade e amor iniciais que você sente que são intrínsecos à história (ela apenas manda e-mails, e sem muito sucesso). Por outro lado, você pensa que uma criança, de fato, poderia viver a vida achando que acontecimentos do verão são apenas do verão, e somente quando Cadence amadurece e começa a perceber as coisas ao seu redor é que você passa a relevar certas coisas.

Ainda que eu não tenha “engolido” essa falta de iniciativa por parte de Cady, a qual E. Lockhart poderia ter trabalhado de outra forma (quem já leu o livro sabe o motivo), a parte mais madura, profunda e com fluxo de consciência mais contínuo da história só poderia ter ocorrido porque a anterior, infinitamente inferior, estava lá para que a comparação existisse. Foi o retrato perfeito da transição da infância para a adolescência; da ignorância para o esclarecimento; da simplicidade para a complexidade; do egocentrismo para a percepção de mundo de fora para dentro, e por fim, do amor-que-acha-que-se-sente para o amor, de fato.

A tragédia é feia e complicada, idiota e confusa.
É isso que as crianças sabem.
E elas sabem que as histórias
sobre sua família
são ao mesmo tempo verdade e mentira.
Existem infinitas variações.
E as pessoas continuarão a contá-las. (pgs. 268-269)

Emily Jenkings, conhecida como E. Lockhart, é uma escritora estadunidense, autora de livros para crianças, jovens e adultos. Mentirosos é o seu mais recente livro, publicado em 2014.

  • A minha edição é a da Editora Seguinte, selo da Companhia das Letras, com tradução de Flávia Souto Maior, publicada também em 2014.
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Olhe Para Mim (Jennifer Egan)

O que realmente define uma pessoa?

Há diversos aspectos que podem ser levados em consideração, é claro, e alguns podem ser físicos, enquanto outros são meramente psicológicos. O que não pode ser negado, no entanto, é que em muitos casos, a maneira como nos vemos por fora influencia como somos por dentro de uma maneira mais devastadora do que podemos imaginar.

Em Olhe Para Mim (“Look at Me”, no original, em inglês), livro publicado em 2001 por Jennifer Egan, acompanhamos a mudança na vida de Charlotte Swenson, uma modelo que, após um acidente automobilístico, é submetida a uma cirurgia plástica radical para recuperar os danos em seu rosto – e fica irreconhecível.

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Charlotte Swenson é uma modelo que já passou dos trinta anos, mas que ainda finge estar na casa dos vinte. Sua carreira não é exatamente o que chamaria de promissora – começou aos trancos e barrancos, ficou ótima, e depois começou a declinar. Uma grande adepta da mania de contar mentiras, ela dificilmente acreditaria que acabaria sofrendo um acidente de carro e que seu rosto ficaria tão destruído que apenas uma série de cirurgias (e 80 parafusos de titânio) poderiam devolver alguma forma ao seu rosto.

Engana-se, no entanto, quem pensa que os problemas começaram pelo fato de Charlotte ter ficado feia ou deformada. A milagrosa cirurgia deixou o seu rosto belo, depois de todo o processo de cicatrização. Mas o problema era que as pessoas não a reconheciam mais. E não apenas elas, mas a própria Charlotte começou a ter problemas com o seu rosto, agora irreconhecível até para ela – e com as consequências de repentinamente perder parte de sua identidade.

Passei uma hora inteira olhando pelo círculo de luz leitosa em volta do espelho do banheiro. Segurei fotos antigas ao lado da minha imagem e tentei compará-las. Mas só descobri que, além de não saber que aspecto eu tinha agora, eu jamais soubera. As fotos antigas não ajudaram. Como todas as boas fotos, elas escondiam a verdade. (p. 41)

Para quem já está familiarizado com o estilo de Jennifer Egan, é fácil presumir que a história não giraria apenas em torno da protagonista. Egan cria outras personagens que podem ou não estar ligadas ao destino de Charlotte: Michael West, um misterioso professor de matemática, Moose, irmão de uma amiga de infância de Char e gênio incompreendido e uma segunda Charlotte, filha desta mesma amiga de infância. As suas histórias, em princípio distintas, vão aos poucos criando forma e se unindo de forma bastante natural e inteligente – uma característica mais do que marcante da escrita da autora.

Ambas as Charlottes são diferentes e ao mesmo tempo possuem muitas similaridades: não estão confortáveis com o modo como são vistas pelo mundo, e em partes, não sabem exatamente como se encaixar na sociedade. Egan é mestre em cutucar vários pontos sobre como a mídia tem influencia não somente sobre quais devem ser os modelos de inspiração dos consumidores comuns, mas como isso afeta os homens e mulheres que perpetuam e são personificados e personificadas como tais modelos. Charlotte possui uma base de clichês que todos conhecemos (drogas, álcool, glamour e favores sexuais em troca de posições ou apenas para evitar conflitos), mas os seus questionamentos vão além deles, e esse é um triunfo da narrativa: inicialmente, ela não nos deixa no lugar-comum.

Eu guardava as verdades que possuía porque informação não era uma coisa – era incolor, inodora, amorfa, e, portanto, indestrutível. Não havia como corrigi-la ou anulá-la, não havia como impedir a sua proliferação. Dizer um segredo a alguém era como guardar plutônio dentro de uma embalagem de sanduíche. A informação inevitavelmente duraria mais que a amizade ou o amor ou a confiança em que você a colocara. E aí você a teria revelado. (p. 79)

A autora arquiteta muito bem a desconstrução e subsequente construção dos cacos da personalidade das duas protagonistas: inicialmente em extremidades opostas, encontram-se, separam-se e vão aos poucos perdendo características e ganhando outras, até chegarem a um ápice no qual se reencontram, já completamente mudadas. Enquanto a mais velha tenta reencontrar um caminho profissional, agora já obsoleta e estranha para o mundo fashion, a mais nova, após perder a virgindade, tenta descobrir porque se sente tão deslocada em seu pequeno mundo, com a escola e garotos.

Mas não para por aí: Jennifer Egan, além de ter um estilo de escrita experimental, também é visionária não apenas no modo como articula as palavras no papel, mas também na arte de prever tendências, especialmente as tecnológicas. O livro começou a ser escrito em 1995, e só terminou no início de 2001; em uma das desesperadas tentativas de Oscar (o agente de Charlotte) para reinseri-la no mercado de trabalho, a autora nos apresenta a um homem com ideias de construir uma base de dados pela internet, na qual pessoas comuns, divididas em vários níveis de interesse, fariam posts sobre seu cotidiano, com fotos ou qualquer outra coisa que parecesse interessante para atrair visualizações (familiar, não?).

Outra de suas “previsões”, a qual pode ser considerada até assustadora, é a de uma das personagens (cujo nome não revelarei para não estragar a leitura) e o terrorismo. A personagem em questão planeja fazer algo grande para dar aos Estados Unidos (cuja população ela chama de conspiradores) sua lição. Egan acerta na americanização dela, que a princípio se recusa até mesmo a comer no Mc Donald’s, mas que logo se vê inconscientemente presa nos sonhos americanos, mesmo com cada gota de suor de seu corpo negando as mudanças e se forçando a permanecer imutável.

No entanto, um ponto falho foi exatamente a caracterização dessa personagem. No livro ela tem a função de ser mais especial do que a própria Charlotte adulta, e talvez essa pretensão tenha sido bem recebida nos Estados Unidos, mas para mim ela perdeu toda a magia quando da descoberta de suas reais motivações. Se por um lado a americanização foi feita com maestria, por outro, as suas próprias motivações caíram na ideia deturpada que muitos estadunidenses possuem em relação à cultura do Islã/oriental. Egan afirma, no posfácio (desnecessário), como ela a teria construído diferente caso tivesse publicado o livro depois dos atentados do 11 de setembro, e sobre todo o cuidado que teve para que essa personagem parecesse crível. O seu erro, no entanto, foi estigmatizá-la como apenas um muçulmano extremista genial, mas que apesar de toda a genialidade, sucumbiu à superioridade dos EUA mascarada como inferior.

Alimente as pessoas com um bocado de algo que elas desejarão pelo resto da vida e você não precisará lutar contra elas. Elas se entregarão. Essa era a conspiração americana. (p. 226)

É nesse momento que a história toda começa a perder um pouco do sabor e da genialidade: ao apontar os diversos defeitos da sua nação, Egan repentinamente os faz parecer melhores, mesmo como defeitos; “entre os piores, ainda somos os melhores”. Somando essa decepção temos o fato de que Moose, o tio da Charlotte mais nova e uma das melhores personagens da história, possui um crescendo tão empolgante que a autora claramente não soube como terminá-lo. Em um determinado momento, você chega a torcer pela morte dele, ou qualquer outra tragédia, só para que algo realmente surpreendente aconteça, tamanha tensão é criada, mas acaba se decepcionando com o clímax extremamente simplório.

Talvez muitos digam que “a vida não é tudo isso”, “ela é realista”, e considerando por este último ponto, podem defender a autora, mas aparentemente essa é uma tendência particular, já que o outro livro que li dela, o aclamado A Visita Cruel do Tempo, possui o mesmo “problema”. Escrita experimental fantástica, ótimo background e desenvolvimento das personagens, mas finais que nunca conseguem se equiparar com as expectativas iniciais. Não posso dizer que a leitura não vale a pena, pois Egan sabe mesmo escrever, e evoca questões muito pertinentes, mas no fim, não consigo ficar satisfeita com os desfechos.

Ainda tento defendê-la, mesmo com uma dupla experiência “negativa” com seus finais, fingindo que acredito que parte da simplicidade ou monotonia pode ter sido proposital, pelo menos em Olhe Para Mim. Por quê? Lendo o excerto de Ulisses, de James Joyce, com a qual ela abre o livro, dá até para se sentir um pouco ingênuo esperando outra coisa.

Caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, irmãos do amor. Mas sempre encontrando-nos a nós mesmos.

Jennifer Egan é uma escritora estadunidense. Com um perfil inovador, é autora de quatro romances e diversos contos e artigos. Tem três romances publicados no Brasil, além do e-book de A Caixa Preta, conto publicado em forma de posts no Twitter.

  • A minha edição é a da Intrínseca, com tradução de Adalgisa Campos da Silva.

Americanah (Chimamanda Ngozi Adichie)

“A opressão, na verdade, vem do próprio oprimido, que se diminui por pura falta de personalidade e autopiedade”

“Não sou racista, até tenho amigos negros”

“Feminismo é ridículo, queremos igualdade, e não que um gênero seja superior a outro”

“Não acho que a mulher sofra opressão, nos dias de hoje elas até chegam a cargos…”

“A minoria é minoria porque se faz de vítima…”

Quem nunca ouviu ou até mesmo proferiu essas frases?

Grande parte das pessoas que faz isso acredita, por sinal, que não está sendo racista, machista, elitista, etc., e trabalhar para a desconstrução dessas “opiniões/convicções” é uma tarefa bastante árdua.

Mas qual é a importância disso tudo para conversarmos sobre Americanah?

O extenso livro escrito por Chimamanda Ngozi Adichie aborda todas essas questões e ainda outras mais, ora nos acontecimentos diretos na vida de Ifemelu, a protagonista, ora com as pessoas ao seu redor, seja na Nigéria, Inglaterra, ou nos Estados Unidos.

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Chimamanda nos transporta, inicialmente, para os Estados Unidos atuais. Ifemelu é uma famosa blogueira nigeriana que escreve sobre a perspectiva de uma mulher negra e africana vivendo nos EUA. Enquanto temos um breve panorama de sua vida, logo notamos que há algo errado nela: um desconforto que, ironicamente, nenhum conforto proporcionado pelo país consegue cessar.

Não dissera apenas “bem-vinda”, mas “bem-vinda de volta“, como se soubesse que ela realmente estava de volta. Ifemelu agradeceu e, na escuridão cinzenta do fim de tarde, com o ar pesado de odores, sentiu a dor de uma emoção quase insuportável que não sabia definir. Era nostálgica e melancólica, uma linda tristeza pelas coisas que perdera e que jamais conheceria. (p. 418)

Mais de uma década depois de chegar à América do Norte, Ifemelu decide, então, voltar para a Nigéria, no auge da sua situação financeira. Mas antes disso, nós é que voltamos para o seu passado, a sua vida na cidade natal, Lagos, o seu relacionamento com Obinze (ou Teto), as perspectivas de vida que tinha antes de ir para os Estados Unidos, e como ela se virou depois que chegou ao país. Também vemos as amizades que ela faz, o seu caminho profissional e os relacionamentos que teve depois de deixar Obinze. A autora também alterna um pouco a narrativa e nos coloca a par da vida de Teto e de como o seu caminho como imigrante, mas na Inglaterra, teve um contorno completamente diferente do de Ifemelu.

O que fica claro desde o princípio é que Ifemelu e Obinze possuem vidas diferentes – a família dela, de classe média, enfrenta várias dificuldades alguns anos antes de ela sair da Nigéria, enquanto Obinze e sua mãe, uma professora universitária, vivem com mais conforto – mas que o baque realmente chega quando ela coloca os pés nos Estados Unidos e torna-se negra. Em seu país natal, havia outras preocupações em sua vida, como o fanatismo religioso de sua mãe, a apatia e falta de estímulo profissional de seu pai e o regime militar dos anos 90, mas ao chegar nos EUA, Ifem descobre e sente na pele o preconceito por ser uma mulher de cor. E é a partir daí que ela começa a analisar o comportamento e pensamento reais das pessoas em relação a isso, e não só as brancas: as negras também.

O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queríamos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesma como negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. (p. 315)

Para arquitetar as 500 páginas da história de Ifemelu, Chimamanda faz uma mescla muito bem articulada entre a história de vida da protagonista, suas dificuldades, alguns pontos de vista de Obinze e os posts do blog (que se chama Raceteenth or Various Observations About American Blacks (Those Formerly Known as Negroes) by a Non-American Black, em português: “Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana”). As análises feitas por Ifem ocorrem através de diálogos simples em festas, reuniões na casa de amigos, no trabalho, na rua, e o livro todo tem esse sentimento familiar – você deseja ser amigo de Ifemelu e também comentar em seu blog ou compartilhar o seu texto com os seus amigos.

É importante notar que o livro não tem um tom educacional descarado. Não é um manifesto ou nada do gênero. Enquanto a vida de Ifemelu se mistura com a da própria Chimamanda, as mensagens contidas na obra (e explicitamente o blog dentro dela) tem como alvo tanto o negro americano, quanto o negro não-americano e o branco. As reflexões de Ifem vão desde as semelhanças e diferenças entre negros e hispânicos nos Estados Unidos, até o comportamento de exclusão da culpa e auto-defesa do homem branco, que, em sua maioria, não assume seus privilégios por achar que como não é diretamente culpado pela exclusão das pessoas de cor da sociedade (seja ela parcial, ou total, no passado ou no presente), também pode se considerar oprimido em uma esfera parecida ou não acredita que haja opressão em relação a elas – voltamos para a frase “o racismo é coisa que vem só de você”, “o racismo não existe mais”, “tenho até colegas de trabalho negros com bons salários/cargos”.

Tudo isso nos leva às pérolas: “não vou ouvir porque na minha vida isso não acontece, e se isso não acontece comigo, não acontece com ninguém”, “você enxerga racismo em tudo”. Chimamanda mostra que racismo não é exagero, é real, e acontece o tempo todo, desde você pedir para a sua amiga negra alisar os cabelos, dizer que uma determinada cor não combina com o seu tom de pele ou dizer “para um negro, ele é bonito”, até mudar de calçada quando vê um homem negro à noite, culpabilizar o próprio negro pela existência do racismo e não aceitar uma pessoa negra para uma vaga de emprego por ela ser negra – mas na sua cabeça, inventar várias outras desculpas para o seu desconforto.

[Para outros negros americanos] Se estiver falando com uma pessoa que não for negra sobre alguma coisa racista que aconteceu com você, tome cuidado para não ser amargo. Não reclame. Diga que perdoou. Se for possível, conte a história de um jeito engraçado. E, principalmente, não demonstre raiva. Os negros não devem ter raiva do racismo. Se tiverem, ninguém vai sentir pena deles. Isso se aplica apenas a liberais brancos, aliás. Nem se incomode em falar de alguma coisa racista que aconteceu com você para um conservador branco. Porque esse conservador vai dizer que você é o verdadeiro racista e sua boca vai ficar aberta de espanto. (p. 241)

E voltando ao desconforto, a trajetória de Ifemelu fora da Nigéria é cheia de conquistas, felicidade, mas também é permeada por um estranhamento e deslocamento que a acompanham por mais de uma década. A sua ida aos EUA proporcionou a ela uma nova visão de si mesma, mas mesmo quando tudo parece bem, as coisas na verdade não estão. Aos poucos vamos entendendo o que Ifem realmente sente (algo que antes nem ela sabia dizer o que era), e torcemos pela sua felicidade, para que ela finalmente encontre o seu lugar e respire aliviada. Muitos dizem que nós é que tornamos um lugar o nosso lar, mas nem sempre isso é aplicável.

Ela já sabe a resposta, mas o caminho até ela é árduo, e é inevitável torcer por ela, que assim como nós, é cheia de defeitos (alguns bem destacados no livro), mas que apenas quer ser feliz. O livro nos deixa, como lição, que o que mais queremos é que outras pessoas compreendam que ainda temos muito o que aprender sobre nosso próprios privilégios e o modo como enxergamos os que estão ao nosso redor. Americanah é uma leitura que incomoda da melhor maneira possível e não falha em nos fazer sair da “zona de conforto de pensamento”, na qual usamos a negação de forma tão obstinada que às vezes só um soco no estômago consegue abrir nossos olhos.

Chimamanda Ngozi Adichie é uma premiada escritora nigeriana que vive entre os Estados Unidos e seu país natal. Ela escreve poemas, romances e contos e além de Americanah, seu mais recente livro, ela escreveu outros três romances (dois deles também publicados no Brasil).

  • No livro, quando Ifemelu finalmente volta para a Nigéria, ela abandona o Raceteenth e inicialmente trabalha em uma revista feminina do país, mas descontente com os rumos da publicação, decide voltar a escrever um blog, dessa vez sobre a vida em Lagos (The Small Redemptions of Lagos/”As Pequenas Redenções de Lagos”). Chimamanda mantém este blog ativo aqui. Há até uma coluna de Ifemelu e Teto (Ifem&Ceiling), entre outras ótimas publicações. Vale a pena conferir.