His Family (Ernest Poole)

Como falar de modernidade sobre o ponto de vista de uma personagem que é tudo, menos moderna? Pois foi isso que Ernest Poole fez em His Family, terceira obra publicada pelo autor, em 1917.

Escolhi esse livro a esmo, em uma lista do Goodreads. E descobri, para a minha surpresa em relação à falta de informações em português sobre o autor e a obra, que His Family foi o vencedor do primeiro prêmio Pulitzer de ficção no ano seguinte ao de sua publicação, em 1918. Baixei a versão para o Kindle no Project Gutenberg, pois a obra já está em domínio público, e mandei bala.

Talvez tenha sido proposital – o que eu não posso afirmar – mas Poole escolheu como protagonista de uma história sobre avanços industriais e tecnológicos, um homem já na terceira idade e convicto com o estilo de vida que sempre teve. Roger Gale olha com nostalgia para tudo o que passou e sua criação rural em New Hampshire, mas também com uma certa amargura para como a vida em Nova Iorque, antes e durante a Primeira Guerra Mundial, era ao mesmo tempo exagerada e tentadora. Mas o que realmente o faz pensar em como as coisas mudam, são cíclicas, e que por mais que seja ok viver à sua maneira, é inevitável que as coisas sigam em frente, são as suas três filhas. Cada uma delas mostra uma faceta sua, e não necessariamente uma que ele conheça.

Poole também fez uma leitura interessante da Nova Iorque pré-Primeira Guerra Mundial (a história começa em 1913 e termina em 1915). Não posso dizer o mesmo do durante. Até porque o objetivo do livro não é cobrir esse período, especificamente. Aqui ele fica como pano de fundo para mostrar um pouco sobre a imigração e para alavancar alguns acontecimentos, e por mais que a empresa da qual Roger é dono sofra e quase precise fechar por causa da Guerra, fica claro que ela não é um elemento de destaque.

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Manhattan aproximadamente na mesma época em que se passa a história

As mudanças que ocorrem no modo de Roger pensar e agir também foram muito bem criadas e conduzidas. Percebe-se que, aos poucos, com naturalidade, as características mais marcantes das filhas vão sendo reconhecidas por ele como suas. Mas tudo isto ocorre porque sua esposa, antes de morrer, pediu que ele continuasse a viver na vida de suas filhas (you will live on in our children’s lives). Dessa forma, ele começa a se identificar mais com as três mulheres, que por sinal, são três personagens muito fortes: uma é a filha revolucionária e moderna, que já passou dos 30 e não quer se casar, apenas trabalhar e cuidar de projetos sociais; a outra é a filha tradicional, que tem 5 filhos e é mais conservadora, e por último, a filha mais nova, libertina e que não liga para convenções.

Com um enredo simples (um homem viúvo e na terceira idade visualiza as mudanças ao seu redor e dentro de si através das filhas), a escrita de Poole ajuda muito a história a fluir bem. O autor mostra a sua visão de como o modo de vida está se tornando cada vez mais moderno não só através de personagens como Deborah (a filha revolucionária), Laura (a filha mais nova que não liga para a opinião de ninguém) e Johnny (um jovem e pobre judeu que tem Tuberculose Espinhal), mas também em seu estilo de escrita. Diferentemente de muitos escritores da época, ela é bem moderna e simplificada, com poucos traços de formalidade excessiva. O autor também insere, entre os dilemas da família Gale, a existência ou não de Deus, o papel da mulher na sociedade (principalmente com a figura feminista de Deborah) e os estereótipos das famílias endinheiradas e também dos imigrantes empobrecidos dos Estados Unidos no começo do século XX.

O maior mérito do autor é o de deixar esta mudança gradual e natural, e bem como prender a atenção do leitor do início ao fim, mesmo que a história não tenha a mais original das premissas ou algum segredo a ser revelado. Em dois anos, a vida de Gale muda muito, e se ele começa a história descrente da existência de Deus e não sabemos se ele muda de ideia, pelo menos temos a certeza de que ele passou a entender melhor o papel de um pai na vida de suas filhas, bem como o de uma pessoa tendo suas convicções testadas devido ao avanço acelerado da modernidade de seu país.

“I wonder if it won’t be the same with the children as it has been with us. No matter how long each one of them lives, won’t their lives feel to them unfinished like ours, only just beginning? I wonder how far they will go. And then their children will grow up and it will be the same with them. Unfinished lives. Oh, dearie, what children all of us are.”

“Me pergunto se com as crianças será a mesma coisa que foi para nós. Não importa o quanto cada uma delas viva, as suas vidas não lhes parecerão inacabadas, como as nossas, apenas começando? Me pergunto o quão longe elas irão. E então seus filhos irão crescer e será a mesma coisa com eles. Vidas inacabadas. Oh, querido, somos todos crianças.”

O autor: Ernest Poole foi um escritor e jornalista estadunidense nascido em Chicago. Trabalhou como correspondente dos EUA durante a Primeira Guerra e em outros conflitos na Europa e Ásia, e também era ativista social. Sua obra de maior destaque é The Harbor (O Porto), publicada dois anos antes de His Family (sem título no Brasil).

Outros links úteis (em inglês):

Top 10 Forgotten Pulitzer Prize-Winning Novels
TCR Forgotten Pulitzer Series: His Family (1918) by Ernest Poole
Museum of the City of New York