Mentirosos (E. Lockhart)

Todos nós temos segredos da nossa adolescência e infância. Alguns são bem bobos, e outros mais pesados, mas no geral tínhamos certo receio de que os adultos acabassem descobrindo – e só quando crescemos é que nos damos conta de que grande parte das coisas era mesmo muito boba, como ter roubado alguma comida da casa de um parente, ter quebrado algo e escondido por anos, entre outras.

No entanto, há também muitas mentiras que, quando contadas incessantemente, tornam-se verdades. Ou sonhos que se tornam pesadelos. Em Mentirosos (“We Were Liars”, em inglês), E. Lockhart utiliza uma prosa delicada e irônica e com uma excelente cadência para transformar o seu texto suave e ingênuo em algo maior e com mais profundidade. Essa transição é a sua maior vitória em relação à narrativa.

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Os Sinclair são uma tradicional família estadunidense. Na teoria, possuem muito dinheiro e terras, incluindo uma ilha particular em Massachusetts, chamada Ilha Beechwood. No local, há quatro mansões: uma para o patriarca da família, Harris Sinclair e as outras três para cada uma de suas três filhas. Cadence Sinclair é a mais velha entre todos os netos de Harris, e por isso, a principal herdeira. A garota também faz parte de um grupo de quatro pessoas, chamado Mentirosos. Os outros integrantes são dois de seus primos, Mirren e Johnny, e o sobrinho do namorado da mãe de Johnny, Gat.

Uma das particularidades dos Mentirosos é o fato de que eles basicamente se encontram apenas uma vez por ano, quando toda a família se reúne para passar as férias em Beechwood. A “tradição” existe desde que são crianças, e Cadence vai nos contando algumas coisas que aconteceram em cada verão, no lugar. Inicialmente, você não espera nada das histórias (nada mesmo), mas conforme a narrativa se estende, coisas vão acontecendo, e quanto mais você procura por respostas, mais vai se desenrolando em mistérios.

Bem-vindo à bela família Sinclair.
Ninguém é criminoso.
Ninguém é viciado.
Ninguém é um fracasso.
Os Sinclair são atléticos, altos e lindos. Somos democratas tradicionais e ricos. Nosso sorriso é largo, temos queixo quadrado e sacamos forte no tênis. (p. 13)

E por falar em mistério, esse é um cuidado com o qual qualquer pessoa que converse sobre o livro precisa ter. Tentar esmiuçar pormenores para quem ainda não leu estragaria a experiência de leitura, já que este é o tipo de obra que, caso a pessoa conheça o final, não conseguirá ler nenhuma das partes da forma mais desejável. Se por um lado, esse tipo de segredo tem aquele efeito de surpresa no final, E. Lockhart só acertou porque o livro é muito pequeno. Arrastar uma situação que apenas começa a se desenrolar depois da metade do livro só é aceitável neste caso exatamente devido ao fato de a leitura ser bem rápida.

A obra em si não é complexa, apesar de Cadence, a personagem principal, ser bastante tridimensional. A sua ironia parece birra de criança no começo, e em alguns momentos ela oscila tanto que parece ser bastante real – ou que ela realmente acredita nisso, mesmo tentando demonstrar que não. A sua relação conturbada com os pais e com Gat parece bastante confusa no começo, e o livro evolui em tudo junto com a personagem. Apesar disso, Cadence não existe para ser amada ou para que você a admire. Essa função pertence à Gat, o garoto de origem indiana que levanta questões avançadas demais para alguém de sua idade.

A visão inicial que temos dos Sinclair é a de que são todos ricos e fúteis, e o estereótipo que vem com essa união de fatores às vezes incomoda um pouco. Gat é o único que destoa em tudo da família, mesmo das mais bem intencionadas e doces crianças, outros primos que não são incluídos no grupo dos Mentirosos. Conforme a história avança, só vemos que os adultos são, na verdade, gananciosos, mentirosos, manipuladores e incrivelmente infelizes, e que Gat não é o único de olhos abertos no livro, mas sim o único que não tem motivos para fechá-los, já que é apenas um menino e não tem nada a ganhar/perder com os seus questionamentos.

Estou me perguntando como podemos dizer que o avô de vocês é dono desta terra. Não legalmente, mas de fato. (…) O que estou perguntando é: como podemos dizer que a terra pertence a qualquer pessoa? – Gat fez um gesto englobando a areia, o mar, o céu. (pgs. 29-30)

E. Lockhart divide a narrativa entre contos de fadas criados por Cadence – os quais claramente falam sobre a sua família – e a própria contando a história de cada verão, em primeira pessoa e com alguns trechos sem o refinamento de um texto, mas com improviso e repetições poéticas. Compartilhamos os seus medos, a confusão de sentimentos, a descoberta do amor, depressão e o fato de que, como uma Sinclair, o seu dever é estar sempre linda, feliz e contida, o que a torna uma mentirosa, independentemente do grupo. As pequenas mentiras que conta – que não são as do tipo compulsiva, e sim as do tipo necessárias para garantir privilégios/proteger as aparências – parecem sempre ter proporções menores, mas quando acumuladas, tornam-se progressivamente um peso insuportável.

De fato, progressão é o que define bem o livro. Ele começa infantil, irritante, com sentimentos soltos e atos sem explicação; o fato de Cadence ter ficado doente e ter passado dois anos sem ir à Beechwood e, por consequência, não ter procurado nenhum dos Mentirosos tira a credibilidade e amor iniciais que você sente que são intrínsecos à história (ela apenas manda e-mails, e sem muito sucesso). Por outro lado, você pensa que uma criança, de fato, poderia viver a vida achando que acontecimentos do verão são apenas do verão, e somente quando Cadence amadurece e começa a perceber as coisas ao seu redor é que você passa a relevar certas coisas.

Ainda que eu não tenha “engolido” essa falta de iniciativa por parte de Cady, a qual E. Lockhart poderia ter trabalhado de outra forma (quem já leu o livro sabe o motivo), a parte mais madura, profunda e com fluxo de consciência mais contínuo da história só poderia ter ocorrido porque a anterior, infinitamente inferior, estava lá para que a comparação existisse. Foi o retrato perfeito da transição da infância para a adolescência; da ignorância para o esclarecimento; da simplicidade para a complexidade; do egocentrismo para a percepção de mundo de fora para dentro, e por fim, do amor-que-acha-que-se-sente para o amor, de fato.

A tragédia é feia e complicada, idiota e confusa.
É isso que as crianças sabem.
E elas sabem que as histórias
sobre sua família
são ao mesmo tempo verdade e mentira.
Existem infinitas variações.
E as pessoas continuarão a contá-las. (pgs. 268-269)

Emily Jenkings, conhecida como E. Lockhart, é uma escritora estadunidense, autora de livros para crianças, jovens e adultos. Mentirosos é o seu mais recente livro, publicado em 2014.

  • A minha edição é a da Editora Seguinte, selo da Companhia das Letras, com tradução de Flávia Souto Maior, publicada também em 2014.
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Olhe Para Mim (Jennifer Egan)

O que realmente define uma pessoa?

Há diversos aspectos que podem ser levados em consideração, é claro, e alguns podem ser físicos, enquanto outros são meramente psicológicos. O que não pode ser negado, no entanto, é que em muitos casos, a maneira como nos vemos por fora influencia como somos por dentro de uma maneira mais devastadora do que podemos imaginar.

Em Olhe Para Mim (“Look at Me”, no original, em inglês), livro publicado em 2001 por Jennifer Egan, acompanhamos a mudança na vida de Charlotte Swenson, uma modelo que, após um acidente automobilístico, é submetida a uma cirurgia plástica radical para recuperar os danos em seu rosto – e fica irreconhecível.

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Charlotte Swenson é uma modelo que já passou dos trinta anos, mas que ainda finge estar na casa dos vinte. Sua carreira não é exatamente o que chamaria de promissora – começou aos trancos e barrancos, ficou ótima, e depois começou a declinar. Uma grande adepta da mania de contar mentiras, ela dificilmente acreditaria que acabaria sofrendo um acidente de carro e que seu rosto ficaria tão destruído que apenas uma série de cirurgias (e 80 parafusos de titânio) poderiam devolver alguma forma ao seu rosto.

Engana-se, no entanto, quem pensa que os problemas começaram pelo fato de Charlotte ter ficado feia ou deformada. A milagrosa cirurgia deixou o seu rosto belo, depois de todo o processo de cicatrização. Mas o problema era que as pessoas não a reconheciam mais. E não apenas elas, mas a própria Charlotte começou a ter problemas com o seu rosto, agora irreconhecível até para ela – e com as consequências de repentinamente perder parte de sua identidade.

Passei uma hora inteira olhando pelo círculo de luz leitosa em volta do espelho do banheiro. Segurei fotos antigas ao lado da minha imagem e tentei compará-las. Mas só descobri que, além de não saber que aspecto eu tinha agora, eu jamais soubera. As fotos antigas não ajudaram. Como todas as boas fotos, elas escondiam a verdade. (p. 41)

Para quem já está familiarizado com o estilo de Jennifer Egan, é fácil presumir que a história não giraria apenas em torno da protagonista. Egan cria outras personagens que podem ou não estar ligadas ao destino de Charlotte: Michael West, um misterioso professor de matemática, Moose, irmão de uma amiga de infância de Char e gênio incompreendido e uma segunda Charlotte, filha desta mesma amiga de infância. As suas histórias, em princípio distintas, vão aos poucos criando forma e se unindo de forma bastante natural e inteligente – uma característica mais do que marcante da escrita da autora.

Ambas as Charlottes são diferentes e ao mesmo tempo possuem muitas similaridades: não estão confortáveis com o modo como são vistas pelo mundo, e em partes, não sabem exatamente como se encaixar na sociedade. Egan é mestre em cutucar vários pontos sobre como a mídia tem influencia não somente sobre quais devem ser os modelos de inspiração dos consumidores comuns, mas como isso afeta os homens e mulheres que perpetuam e são personificados e personificadas como tais modelos. Charlotte possui uma base de clichês que todos conhecemos (drogas, álcool, glamour e favores sexuais em troca de posições ou apenas para evitar conflitos), mas os seus questionamentos vão além deles, e esse é um triunfo da narrativa: inicialmente, ela não nos deixa no lugar-comum.

Eu guardava as verdades que possuía porque informação não era uma coisa – era incolor, inodora, amorfa, e, portanto, indestrutível. Não havia como corrigi-la ou anulá-la, não havia como impedir a sua proliferação. Dizer um segredo a alguém era como guardar plutônio dentro de uma embalagem de sanduíche. A informação inevitavelmente duraria mais que a amizade ou o amor ou a confiança em que você a colocara. E aí você a teria revelado. (p. 79)

A autora arquiteta muito bem a desconstrução e subsequente construção dos cacos da personalidade das duas protagonistas: inicialmente em extremidades opostas, encontram-se, separam-se e vão aos poucos perdendo características e ganhando outras, até chegarem a um ápice no qual se reencontram, já completamente mudadas. Enquanto a mais velha tenta reencontrar um caminho profissional, agora já obsoleta e estranha para o mundo fashion, a mais nova, após perder a virgindade, tenta descobrir porque se sente tão deslocada em seu pequeno mundo, com a escola e garotos.

Mas não para por aí: Jennifer Egan, além de ter um estilo de escrita experimental, também é visionária não apenas no modo como articula as palavras no papel, mas também na arte de prever tendências, especialmente as tecnológicas. O livro começou a ser escrito em 1995, e só terminou no início de 2001; em uma das desesperadas tentativas de Oscar (o agente de Charlotte) para reinseri-la no mercado de trabalho, a autora nos apresenta a um homem com ideias de construir uma base de dados pela internet, na qual pessoas comuns, divididas em vários níveis de interesse, fariam posts sobre seu cotidiano, com fotos ou qualquer outra coisa que parecesse interessante para atrair visualizações (familiar, não?).

Outra de suas “previsões”, a qual pode ser considerada até assustadora, é a de uma das personagens (cujo nome não revelarei para não estragar a leitura) e o terrorismo. A personagem em questão planeja fazer algo grande para dar aos Estados Unidos (cuja população ela chama de conspiradores) sua lição. Egan acerta na americanização dela, que a princípio se recusa até mesmo a comer no Mc Donald’s, mas que logo se vê inconscientemente presa nos sonhos americanos, mesmo com cada gota de suor de seu corpo negando as mudanças e se forçando a permanecer imutável.

No entanto, um ponto falho foi exatamente a caracterização dessa personagem. No livro ela tem a função de ser mais especial do que a própria Charlotte adulta, e talvez essa pretensão tenha sido bem recebida nos Estados Unidos, mas para mim ela perdeu toda a magia quando da descoberta de suas reais motivações. Se por um lado a americanização foi feita com maestria, por outro, as suas próprias motivações caíram na ideia deturpada que muitos estadunidenses possuem em relação à cultura do Islã/oriental. Egan afirma, no posfácio (desnecessário), como ela a teria construído diferente caso tivesse publicado o livro depois dos atentados do 11 de setembro, e sobre todo o cuidado que teve para que essa personagem parecesse crível. O seu erro, no entanto, foi estigmatizá-la como apenas um muçulmano extremista genial, mas que apesar de toda a genialidade, sucumbiu à superioridade dos EUA mascarada como inferior.

Alimente as pessoas com um bocado de algo que elas desejarão pelo resto da vida e você não precisará lutar contra elas. Elas se entregarão. Essa era a conspiração americana. (p. 226)

É nesse momento que a história toda começa a perder um pouco do sabor e da genialidade: ao apontar os diversos defeitos da sua nação, Egan repentinamente os faz parecer melhores, mesmo como defeitos; “entre os piores, ainda somos os melhores”. Somando essa decepção temos o fato de que Moose, o tio da Charlotte mais nova e uma das melhores personagens da história, possui um crescendo tão empolgante que a autora claramente não soube como terminá-lo. Em um determinado momento, você chega a torcer pela morte dele, ou qualquer outra tragédia, só para que algo realmente surpreendente aconteça, tamanha tensão é criada, mas acaba se decepcionando com o clímax extremamente simplório.

Talvez muitos digam que “a vida não é tudo isso”, “ela é realista”, e considerando por este último ponto, podem defender a autora, mas aparentemente essa é uma tendência particular, já que o outro livro que li dela, o aclamado A Visita Cruel do Tempo, possui o mesmo “problema”. Escrita experimental fantástica, ótimo background e desenvolvimento das personagens, mas finais que nunca conseguem se equiparar com as expectativas iniciais. Não posso dizer que a leitura não vale a pena, pois Egan sabe mesmo escrever, e evoca questões muito pertinentes, mas no fim, não consigo ficar satisfeita com os desfechos.

Ainda tento defendê-la, mesmo com uma dupla experiência “negativa” com seus finais, fingindo que acredito que parte da simplicidade ou monotonia pode ter sido proposital, pelo menos em Olhe Para Mim. Por quê? Lendo o excerto de Ulisses, de James Joyce, com a qual ela abre o livro, dá até para se sentir um pouco ingênuo esperando outra coisa.

Caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, irmãos do amor. Mas sempre encontrando-nos a nós mesmos.

Jennifer Egan é uma escritora estadunidense. Com um perfil inovador, é autora de quatro romances e diversos contos e artigos. Tem três romances publicados no Brasil, além do e-book de A Caixa Preta, conto publicado em forma de posts no Twitter.

  • A minha edição é a da Intrínseca, com tradução de Adalgisa Campos da Silva.

Americanah (Chimamanda Ngozi Adichie)

“A opressão, na verdade, vem do próprio oprimido, que se diminui por pura falta de personalidade e autopiedade”

“Não sou racista, até tenho amigos negros”

“Feminismo é ridículo, queremos igualdade, e não que um gênero seja superior a outro”

“Não acho que a mulher sofra opressão, nos dias de hoje elas até chegam a cargos…”

“A minoria é minoria porque se faz de vítima…”

Quem nunca ouviu ou até mesmo proferiu essas frases?

Grande parte das pessoas que faz isso acredita, por sinal, que não está sendo racista, machista, elitista, etc., e trabalhar para a desconstrução dessas “opiniões/convicções” é uma tarefa bastante árdua.

Mas qual é a importância disso tudo para conversarmos sobre Americanah?

O extenso livro escrito por Chimamanda Ngozi Adichie aborda todas essas questões e ainda outras mais, ora nos acontecimentos diretos na vida de Ifemelu, a protagonista, ora com as pessoas ao seu redor, seja na Nigéria, Inglaterra, ou nos Estados Unidos.

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Chimamanda nos transporta, inicialmente, para os Estados Unidos atuais. Ifemelu é uma famosa blogueira nigeriana que escreve sobre a perspectiva de uma mulher negra e africana vivendo nos EUA. Enquanto temos um breve panorama de sua vida, logo notamos que há algo errado nela: um desconforto que, ironicamente, nenhum conforto proporcionado pelo país consegue cessar.

Não dissera apenas “bem-vinda”, mas “bem-vinda de volta“, como se soubesse que ela realmente estava de volta. Ifemelu agradeceu e, na escuridão cinzenta do fim de tarde, com o ar pesado de odores, sentiu a dor de uma emoção quase insuportável que não sabia definir. Era nostálgica e melancólica, uma linda tristeza pelas coisas que perdera e que jamais conheceria. (p. 418)

Mais de uma década depois de chegar à América do Norte, Ifemelu decide, então, voltar para a Nigéria, no auge da sua situação financeira. Mas antes disso, nós é que voltamos para o seu passado, a sua vida na cidade natal, Lagos, o seu relacionamento com Obinze (ou Teto), as perspectivas de vida que tinha antes de ir para os Estados Unidos, e como ela se virou depois que chegou ao país. Também vemos as amizades que ela faz, o seu caminho profissional e os relacionamentos que teve depois de deixar Obinze. A autora também alterna um pouco a narrativa e nos coloca a par da vida de Teto e de como o seu caminho como imigrante, mas na Inglaterra, teve um contorno completamente diferente do de Ifemelu.

O que fica claro desde o princípio é que Ifemelu e Obinze possuem vidas diferentes – a família dela, de classe média, enfrenta várias dificuldades alguns anos antes de ela sair da Nigéria, enquanto Obinze e sua mãe, uma professora universitária, vivem com mais conforto – mas que o baque realmente chega quando ela coloca os pés nos Estados Unidos e torna-se negra. Em seu país natal, havia outras preocupações em sua vida, como o fanatismo religioso de sua mãe, a apatia e falta de estímulo profissional de seu pai e o regime militar dos anos 90, mas ao chegar nos EUA, Ifem descobre e sente na pele o preconceito por ser uma mulher de cor. E é a partir daí que ela começa a analisar o comportamento e pensamento reais das pessoas em relação a isso, e não só as brancas: as negras também.

O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queríamos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesma como negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. (p. 315)

Para arquitetar as 500 páginas da história de Ifemelu, Chimamanda faz uma mescla muito bem articulada entre a história de vida da protagonista, suas dificuldades, alguns pontos de vista de Obinze e os posts do blog (que se chama Raceteenth or Various Observations About American Blacks (Those Formerly Known as Negroes) by a Non-American Black, em português: “Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana”). As análises feitas por Ifem ocorrem através de diálogos simples em festas, reuniões na casa de amigos, no trabalho, na rua, e o livro todo tem esse sentimento familiar – você deseja ser amigo de Ifemelu e também comentar em seu blog ou compartilhar o seu texto com os seus amigos.

É importante notar que o livro não tem um tom educacional descarado. Não é um manifesto ou nada do gênero. Enquanto a vida de Ifemelu se mistura com a da própria Chimamanda, as mensagens contidas na obra (e explicitamente o blog dentro dela) tem como alvo tanto o negro americano, quanto o negro não-americano e o branco. As reflexões de Ifem vão desde as semelhanças e diferenças entre negros e hispânicos nos Estados Unidos, até o comportamento de exclusão da culpa e auto-defesa do homem branco, que, em sua maioria, não assume seus privilégios por achar que como não é diretamente culpado pela exclusão das pessoas de cor da sociedade (seja ela parcial, ou total, no passado ou no presente), também pode se considerar oprimido em uma esfera parecida ou não acredita que haja opressão em relação a elas – voltamos para a frase “o racismo é coisa que vem só de você”, “o racismo não existe mais”, “tenho até colegas de trabalho negros com bons salários/cargos”.

Tudo isso nos leva às pérolas: “não vou ouvir porque na minha vida isso não acontece, e se isso não acontece comigo, não acontece com ninguém”, “você enxerga racismo em tudo”. Chimamanda mostra que racismo não é exagero, é real, e acontece o tempo todo, desde você pedir para a sua amiga negra alisar os cabelos, dizer que uma determinada cor não combina com o seu tom de pele ou dizer “para um negro, ele é bonito”, até mudar de calçada quando vê um homem negro à noite, culpabilizar o próprio negro pela existência do racismo e não aceitar uma pessoa negra para uma vaga de emprego por ela ser negra – mas na sua cabeça, inventar várias outras desculpas para o seu desconforto.

[Para outros negros americanos] Se estiver falando com uma pessoa que não for negra sobre alguma coisa racista que aconteceu com você, tome cuidado para não ser amargo. Não reclame. Diga que perdoou. Se for possível, conte a história de um jeito engraçado. E, principalmente, não demonstre raiva. Os negros não devem ter raiva do racismo. Se tiverem, ninguém vai sentir pena deles. Isso se aplica apenas a liberais brancos, aliás. Nem se incomode em falar de alguma coisa racista que aconteceu com você para um conservador branco. Porque esse conservador vai dizer que você é o verdadeiro racista e sua boca vai ficar aberta de espanto. (p. 241)

E voltando ao desconforto, a trajetória de Ifemelu fora da Nigéria é cheia de conquistas, felicidade, mas também é permeada por um estranhamento e deslocamento que a acompanham por mais de uma década. A sua ida aos EUA proporcionou a ela uma nova visão de si mesma, mas mesmo quando tudo parece bem, as coisas na verdade não estão. Aos poucos vamos entendendo o que Ifem realmente sente (algo que antes nem ela sabia dizer o que era), e torcemos pela sua felicidade, para que ela finalmente encontre o seu lugar e respire aliviada. Muitos dizem que nós é que tornamos um lugar o nosso lar, mas nem sempre isso é aplicável.

Ela já sabe a resposta, mas o caminho até ela é árduo, e é inevitável torcer por ela, que assim como nós, é cheia de defeitos (alguns bem destacados no livro), mas que apenas quer ser feliz. O livro nos deixa, como lição, que o que mais queremos é que outras pessoas compreendam que ainda temos muito o que aprender sobre nosso próprios privilégios e o modo como enxergamos os que estão ao nosso redor. Americanah é uma leitura que incomoda da melhor maneira possível e não falha em nos fazer sair da “zona de conforto de pensamento”, na qual usamos a negação de forma tão obstinada que às vezes só um soco no estômago consegue abrir nossos olhos.

Chimamanda Ngozi Adichie é uma premiada escritora nigeriana que vive entre os Estados Unidos e seu país natal. Ela escreve poemas, romances e contos e além de Americanah, seu mais recente livro, ela escreveu outros três romances (dois deles também publicados no Brasil).

  • No livro, quando Ifemelu finalmente volta para a Nigéria, ela abandona o Raceteenth e inicialmente trabalha em uma revista feminina do país, mas descontente com os rumos da publicação, decide voltar a escrever um blog, dessa vez sobre a vida em Lagos (The Small Redemptions of Lagos/”As Pequenas Redenções de Lagos”). Chimamanda mantém este blog ativo aqui. Há até uma coluna de Ifemelu e Teto (Ifem&Ceiling), entre outras ótimas publicações. Vale a pena conferir.

The Turmoil (Booth Tarkington)

Sempre que saio da capital de São Paulo e vou para qualquer outro lugar que tenha uma paisagem mais verde, fico impressionada. Não por nunca ter visto nada verde, mas pelo fato de estar sempre rodeada por casas, prédios e pela atmosfera cinzenta da cidade. Como se a poluição já fizesse parte do visual cotidiano – e tivesse até criado alguma beleza. Aí quando vejo algo diferente fica um certo amargor na garganta por pensar em como um cenário poluído é o nosso lar-doce-lar e no geral nem reparamos mais na camada cinza que encobre o céu.

The Turmoil disserta justamente sobre isso: uma cidade fictícia que em poucos anos ficou encoberta por muita poluição devido aos avanços industriais. Publicada em 1918 por Booth Tarkington, a história gira em torno de duas famílias distintas na cidade poluída: os Sheridan (adoro esse nome!) e os Vertrees. A primeira família possui os novos ricos do local, enquanto a segunda não tem um tostão, apenas um nome tradicional. As suas vidas se unem pelo fato de serem vizinhos, e a partir daí toda a história é desenvolvida.

Os dois pilares da história são Bibbs Sheridan e Mary Vertrees. Bibbs é um dos herdeiros de Jim Sheridan, o patriarca da família e responsável por construir toda a sua riquíssima propriedade. Mas ao contrário dos outros dois irmãos, que seguem o ritmo trabalhador e ambicioso do pai, Bibbs possui uma saúde frágil e aspira uma vida de escritor. É constantemente visto como uma decepção por toda a família, e terá uma luta grande pela frente para conseguir satisfazer a todos em sua casa. Já Mary tenta esconder a pobreza de sua família, e tendo uma personalidade forte, acabará conquistando muitas pessoas – mesmo vivendo com essa dualidade.

Tarkington claramente é imparcial quanto à modernidade e suas consequências. Mostra o tempo todo que o ritmo frenético com o qual as pessoas agora realizavam seus trabalhos era extremamente prejudicial, já “prevendo” que no futuro as coisas piorariam. Uma das passagens mais interessantes está bem no começo do livro, quando há um questionamento em relação às cinzas que caem constantemente sobre a cidade:

“Smoke’s what brings your husbands’ money home on Saturday night,” he told them, jovially. “Smoke may hurt your little shrubberies in the front yard some, but it’s the catarrhal climate and the adenoids that starts your chuldern coughing. Smoke makes the climate better. Smoke means good health: it makes the people wash more. They have to wash so much they wash off the microbes. You go home and ask your husbands what smoke puts in their pockets out o’ the pay-roll—and you’ll come around next time to get me to turn out more smoke instead o’ chokin’ it off!”

“A fumaça é o que traz o dinheiro dos seus maridos para casa no sábado à noite”, ele disse a elas, alegremente. “A fumaça pode machucar seus pequenos arbustos na varanda, mas é o clima catarrento e as adenoides que fazem com que seus pequeninos filhos comecem a tossir. A fumaça melhora o clima. Fumaça significa uma saúde boa: faz as pessoas tomarem mais banho. Elas precisam tomar tanto banho que os micróbios são lavados do corpo. Volte para casa e pergunte aos seus maridos o que a fumaça coloca em seus bolsos e da próxima vez voltarão para pedir que eu faça mais fumaça para vocês ao invés de quererem que ela suma!”

Bibbs é, de longe, a personagem mais interessante que Tarkington criou para a história: ele é uma amostra de como o ser humano pode surpreender. Inicialmente doente (“dos nervos”, coisa inadmissível para o seu pai), aos poucos e com determinação (ou pressão?), faz com que a sua vida dê alguns turnos, pegando de surpresa a maioria dos leitores que sempre imaginam o mesmo desfecho para filhos “rebeldes” de pais poderosos.

“Bibbs Sheridan was a musing sort of boy, poor in health, and considered the failure–the “odd one”–of the family.”

“Bibbs Sheridan era um tipo curioso de garoto, tinha a saúde frágil e era considerado o fracasso (o “esquisito”) da família.”

Mary também mostra que não é o que aparenta, e ambas as personagens, que são muito fortes, nos guiam por alguns caminhos, mas no final decidem “por si só” os seus destinos – por mais que isso possa ou não agradar a quem os testemunha.

The Turmoil, em inglês, significa tumulto, agitação, e o título limita-se a descrever o mundo no qual as personagens vivem, e não necessariamente seus conflitos internos (que existem, mas não tão tumultuosos). Talvez o ponto principal da obra seja o fato de que o autor narra os dilemas e problemas das personagens, mas não apresenta uma solução para a questão central (a poluição). Pelo contrário, ele mostra como a conduta e hábitos das pessoas apenas seguiram o fluxo da fumaça e tornaram-se cada vez mais taciturnos, centrados e obscuros. A semelhança entre essa cidade e as grandes metrópoles de hoje, quase 100 anos após a publicação do livro, é assustadora, e é isso o que torna a leitura do livro extremamente rica: indo além de uma simples e superficial amostra histórica e contextual dos Estados Unidos do começo do século passado.

Esta não é a melhor obra de Tarkington dentro da sua “trilogia” sobre o crescimento desmedido das grandes metrópoles nos Estados Unidos – este livro é o primeiro. Ele inclusive tem um aspecto experimental, especialmente quando comparado com o segundo, pois é mais simples e menos tridimensional. Mas o livro flui bem e não é excessivamente apegado aos detalhes. No entanto, também está longe de ser superficial, mas ainda tem pormenores suficientes para que o leitor se identifique com o drama das personagens, mesmo com alguns clichês que poderiam ter sido evitados.

O autor: Newton Booth Tarkington foi um escritor e dramaturgo estadunidense nascido em 1869. Foi muito popular durante os anos que escreveu, e além de vários de seus livros terem sido best-sellers, também ganhou dois Pullitzers. Sua obra mais famosa é Alice Adams.

Doze Anos de Escravidão (Solomon Northup)

É muito complicado fazer uma análise em cima de memórias. Por mais que, para quem leia, algumas vezes elas possam dar a impressão de que são apenas ficção, a verdade é que a identificação com as personagens e com a história acaba aumentando pelo fato de pensarmos em como tudo aquilo aconteceu de verdade.

Também é bastante complicado falar sobre racismo, já que ainda há quem concorde que um “modo” de combatê-lo seja não falar sobre ele ou que é exagero. Eu penso o oposto. Para combater, é preciso falar cada vez mais sobre isso, e cada vez mais deixar com que as pessoas negras tenham o seu espaço e falem e representem por si só. Todos nós ainda somos muito racistas e não há nada de exagero nisso. Escravidão é outro tema tão delicado quanto, pois também acredita-se (erroneamente) que ela não exista mais. Ambos devem ser amplamente discutidos, e precisamos nos educar cada vez mais – por mais politizado ou “educado” que você possa parecer. Acredite, todos nós precisamos.

Falar sobre isso foi o que Solomon Northup fez, em 1853, ao escrever suas memórias após ter passado doze anos como escravo, mesmo tendo nascido um homem livre. Li as memórias em questão, Doze Anos de Escravidão (Twelve Years a Slave), após ter assistido o filme de mesmo nome, lançado no Brasil no começo do ano. Escolhi ler em português mesmo, e a edição da Penguin-Companhia está impecável, mas para quem quiser ler em inglês, a obra já está em domínio público.

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Solomon Northup nasceu em Saratoga, como um homem livre, já que tanto seu pai quanto sua mãe tornaram-se livres em algum momento de suas vidas. Tinha muitos conhecimentos e habilidades, pois já havia trabalhado em diversos segmentos e tocava o violino com muita maestria. Exatamente por tocar tão bem, foi alvo de dois homens, aparentemente interessados em seu talento musical, que o contrataram para fazer apresentações em um circo. No fim das contas, Solomon foi dopado e vendido como escravo em Nova Orleans, e a partir daí os seus anos de sofrimento deram início.

Old Fort
Old Fort House, em Fort Edward, casa na qual Solomon e sua esposa viveram por alguns anos antes do rapto

A narrativa é feita em primeira pessoa, e a tradução de Carolina Chang foi muito efetiva em fazer o livro fluir muito bem. Outro ponto é a riqueza de detalhes por parte de Solomon: ele mostra um panorama quase completo da vida dos escravos do Sul dos Estados Unidos, antes da Guerra Civil, bem como funcionavam as negociações, o comércio real de compra e venda, o engenho das fazendas (explica com detalhes a rotina, o maquinário, etc.), além do tratamento recebido pelos escravos e as leis, que sempre estavam a favor do homem branco (a palavra de 100 negros não tinha efetividade alguma contra a palavra de um único branco).

Todos os horrores sofridos por ele e por todos os outros escravos com os quais ele interagiu não são poupados do leitor. Se com detalhes ele narrou toda a cena ao seu redor, também o fez em relação aos sofrimentos infligidos a ele. Isso torna o livro bastante forte, e já ouvi de muita gente que acha desnecessário tamanhos detalhes. Acredito, pelo contrário, que tudo o que foi escrito foi extremamente necessário, e que se muitas pessoas preferem não ver uma realidade e se enganar, aí a história é outra. Como disse Alexandre Dumas (pai), que era mulato e sofria hostilizações por sua cor no círculo de intelectuais na França,

Muito interessante, com efeito, senhorita – disse o substituto (Villefort) – pois não se trata de uma tragédia artificial, mas de um drama de verdade; não se trata de sofrimentos representados, são sofrimentos reais. Aquele homem que vemos ali, em vez de, ao cair do pano, começar no dia seguinte, volta para a prisão onde encontra o carrasco.
(O Conde de Monte Cristo, Capítulo 6)

Solomon, mais do que qualquer coisa, foi um sobrevivente, de fato, mas porque aprendeu a “jogar o jogo dos homens brancos”. Preservou sua identidade de negro livre e esperou por poucas oportunidades de libertação. Foi traído, viu o “lado bom” (que nunca me convencerá, mesmo tendo convencido ao próprio Solomon) de alguns poucos senhores de escravos, ajudou muitos de seus companheiros com açoites falsos, e foi até o que se pode chamar de limite da sanidade por ainda acreditar que poderia, de alguma maneira, rever a sua família. Sofrendo todo tipo de abuso físico e psicológico, Northup aguentou um martírio que nunca ficava mais leve, ou seja, os anos não suavizaram, apenas o ensinaram (e como é triste ler isso) como se comportar para levar menos açoitamentos e encontrar qualidade de vida em uma vida abaixo de qualquer qualidade que se pode imaginar.

Mesmo sabendo que a história tem um “final feliz”, você não consegue ficar totalmente contente. Enquanto comemora pela liberdade de Solomon, 12 anos depois, é impossível não sentir um gosto amargo quando este vai embora e é possível ler as emoções conflitantes de Patsey, escrava que trabalhou com ele por 10 anos na fazenda do desalmado Epps, e que protagoniza uma das cenas mais revoltantes da narrativa. Ao se despedir dele, ela diz:

Você me poupou de muitos açoites, Platt; que bom que vai ser livre – mas oh!, meu Deus, meu Deus! O que vai ser de mim?

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Ilustração da edição original do livro, quando Solomon é finalmente libertado da fazenda de Epps e da vida de escravidão

Enquanto 12 Anos de Escravidão tornou-se um bestseller na sua época de publicação, todos os acusados por Solomon foram libertados. Um deles até tentou acusá-lo de volta, mas não obteve efetividade. O que fica da obra, hoje, não é só a lembrança do que já aconteceu, porque esta não é uma realidade passada. Até 2013, estimava-se que 30 milhões de pessoas eram mantidas escravas em todo o mundo (cerca de 200 mil só no Brasil). O racismo mata milhares de pessoas todo ano no País, e é presente desde entrevistas de empregos até relações interpessoais.

As memórias de Solomon são autoexplicativas. Por isso fica difícil analisar o modo como a realidade foi exposta, porque ela é cruel, e tentar pontuar qualquer defeito não teria valor algum. E para quem achou o livro um “exagero”, fica a mensagem de Northup, que ao fechar o livro diz, entre outras coisas, que:

Não tenho comentários a fazer sobre o tema da Escravidão. Quem ler este livro poderá formar sua própria opinião sobre essa “peculiar instituição”. (…) Se falhei em algo, foi ao apresentar ao leitor de forma exagerada o lado positivo de tudo.

O autor: Solomon Northup foi um homem negro e livre, nascido em Nova Iorque, em 1808 (ou 1807). Era violinista e também realizava vários tipos de trabalhos sazonais, como corte de lenha, condução de jangadas, manutenção de canais, entre outros. Tinha uma esposa e três filhos. Foi raptado e vendido como escravo aos 33 anos de idade, e por 12 anos viveu e sofreu todos os horrores afligidos por ele nesta condição. Após a sua libertação, publicou suas memórias e passou a rodar os EUA contando a sua história (que virou até peça de teatro, na época).

Um filme de mesmo nome e dirigido pelo britânico Steve McQueen foi lançado no fim do ano passado. A adaptação respeita muito o livro, e todas as pequenas intervenções foram bastante justificáveis. As atuações dos intérpretes das três personagens principais do filme (Solomon, Patsey e Epps) também estão brilhantes. A maior “surpresa” que tive ao comparar o livro e a adaptação foi uma criação do roteirista John Ridley na cena final – que é arrebatadora. Ainda sim, recomendo a todos, sem exceção. Que leiam e que vejam.

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Michael Fassbender, Lupita Nyong’o e Chiwetel Ejiofor (respectivamente Epps, Patsey e Solomon) na adaptação de Steve McQueen

Outros links úteis (em inglês):

In Pittsburgh, visiting abolitionist Northup was suspected to be slave catcher
Welcome to the Town of Fort Edward
12 Years a Slave: the sad song of Solomon Northup
Twelve Years A Slave: Solomon Northup of Minerva

His Family (Ernest Poole)

Como falar de modernidade sobre o ponto de vista de uma personagem que é tudo, menos moderna? Pois foi isso que Ernest Poole fez em His Family, terceira obra publicada pelo autor, em 1917.

Escolhi esse livro a esmo, em uma lista do Goodreads. E descobri, para a minha surpresa em relação à falta de informações em português sobre o autor e a obra, que His Family foi o vencedor do primeiro prêmio Pulitzer de ficção no ano seguinte ao de sua publicação, em 1918. Baixei a versão para o Kindle no Project Gutenberg, pois a obra já está em domínio público, e mandei bala.

Talvez tenha sido proposital – o que eu não posso afirmar – mas Poole escolheu como protagonista de uma história sobre avanços industriais e tecnológicos, um homem já na terceira idade e convicto com o estilo de vida que sempre teve. Roger Gale olha com nostalgia para tudo o que passou e sua criação rural em New Hampshire, mas também com uma certa amargura para como a vida em Nova Iorque, antes e durante a Primeira Guerra Mundial, era ao mesmo tempo exagerada e tentadora. Mas o que realmente o faz pensar em como as coisas mudam, são cíclicas, e que por mais que seja ok viver à sua maneira, é inevitável que as coisas sigam em frente, são as suas três filhas. Cada uma delas mostra uma faceta sua, e não necessariamente uma que ele conheça.

Poole também fez uma leitura interessante da Nova Iorque pré-Primeira Guerra Mundial (a história começa em 1913 e termina em 1915). Não posso dizer o mesmo do durante. Até porque o objetivo do livro não é cobrir esse período, especificamente. Aqui ele fica como pano de fundo para mostrar um pouco sobre a imigração e para alavancar alguns acontecimentos, e por mais que a empresa da qual Roger é dono sofra e quase precise fechar por causa da Guerra, fica claro que ela não é um elemento de destaque.

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Manhattan aproximadamente na mesma época em que se passa a história

As mudanças que ocorrem no modo de Roger pensar e agir também foram muito bem criadas e conduzidas. Percebe-se que, aos poucos, com naturalidade, as características mais marcantes das filhas vão sendo reconhecidas por ele como suas. Mas tudo isto ocorre porque sua esposa, antes de morrer, pediu que ele continuasse a viver na vida de suas filhas (you will live on in our children’s lives). Dessa forma, ele começa a se identificar mais com as três mulheres, que por sinal, são três personagens muito fortes: uma é a filha revolucionária e moderna, que já passou dos 30 e não quer se casar, apenas trabalhar e cuidar de projetos sociais; a outra é a filha tradicional, que tem 5 filhos e é mais conservadora, e por último, a filha mais nova, libertina e que não liga para convenções.

Com um enredo simples (um homem viúvo e na terceira idade visualiza as mudanças ao seu redor e dentro de si através das filhas), a escrita de Poole ajuda muito a história a fluir bem. O autor mostra a sua visão de como o modo de vida está se tornando cada vez mais moderno não só através de personagens como Deborah (a filha revolucionária), Laura (a filha mais nova que não liga para a opinião de ninguém) e Johnny (um jovem e pobre judeu que tem Tuberculose Espinhal), mas também em seu estilo de escrita. Diferentemente de muitos escritores da época, ela é bem moderna e simplificada, com poucos traços de formalidade excessiva. O autor também insere, entre os dilemas da família Gale, a existência ou não de Deus, o papel da mulher na sociedade (principalmente com a figura feminista de Deborah) e os estereótipos das famílias endinheiradas e também dos imigrantes empobrecidos dos Estados Unidos no começo do século XX.

O maior mérito do autor é o de deixar esta mudança gradual e natural, e bem como prender a atenção do leitor do início ao fim, mesmo que a história não tenha a mais original das premissas ou algum segredo a ser revelado. Em dois anos, a vida de Gale muda muito, e se ele começa a história descrente da existência de Deus e não sabemos se ele muda de ideia, pelo menos temos a certeza de que ele passou a entender melhor o papel de um pai na vida de suas filhas, bem como o de uma pessoa tendo suas convicções testadas devido ao avanço acelerado da modernidade de seu país.

“I wonder if it won’t be the same with the children as it has been with us. No matter how long each one of them lives, won’t their lives feel to them unfinished like ours, only just beginning? I wonder how far they will go. And then their children will grow up and it will be the same with them. Unfinished lives. Oh, dearie, what children all of us are.”

“Me pergunto se com as crianças será a mesma coisa que foi para nós. Não importa o quanto cada uma delas viva, as suas vidas não lhes parecerão inacabadas, como as nossas, apenas começando? Me pergunto o quão longe elas irão. E então seus filhos irão crescer e será a mesma coisa com eles. Vidas inacabadas. Oh, querido, somos todos crianças.”

O autor: Ernest Poole foi um escritor e jornalista estadunidense nascido em Chicago. Trabalhou como correspondente dos EUA durante a Primeira Guerra e em outros conflitos na Europa e Ásia, e também era ativista social. Sua obra de maior destaque é The Harbor (O Porto), publicada dois anos antes de His Family (sem título no Brasil).

Outros links úteis (em inglês):

Top 10 Forgotten Pulitzer Prize-Winning Novels
TCR Forgotten Pulitzer Series: His Family (1918) by Ernest Poole
Museum of the City of New York