Ratos (Gordon Reece)

Há muitos ditados que defendem que nós somos os únicos responsáveis pelas coisas que acontecem em nossas vidas. Que por mais que “Destino” ou qualquer outra força nos imprima determinadas condições, o que realmente conta, no fim, é o modo como reagimos a estes acontecimentos.

Em Ratos, Gordon Reece joga a seguinte situação para o leitor: uma filha que sofre bullying e fica calada e a sua mãe, que igualmente sofre assédio no trabalho e que jamais revida. Ambas decidem se isolar depois que a menina sofre um último ato de maldade por partes das ex-amigas de escola, e a partir daí, criam uma rotina dentro da bolha de conforto ao redor de ambas. Vivendo literalmente como ratos, parecem felizes e oblíquas, mas alguma coisa acontece e interrompe essa harmonia. Se fosse você…o que faria? Reece nos questiona o tempo todo a partir dali.

Shelley e sua mãe são pessoas que provavelmente você conhece. Ou talvez a sua personalidade seja parecida com a delas. São do tipo que não reagem, não por não quererem, mas por acharem que nada adiantaria, que as coisas só piorariam caso houvesse um conflito. Não cabe a nós julgar, no entanto. No caso das duas, elas têm sentimentos reprimidos, mas apenas quando os pais de Shelley se divorciam e as duas vão morar no Chalé Madressilva, distante do centro, na Inglaterra, mãe e filha começam um exercício de todos os dias contarem seus pontos altos e baixos, e é ali que o leitor percebe que elas sabem muito bem o que sofrem e que sentem vontade de revidar – mas não têm a coragem ou o primeiro estímulo para que isso possa se tornar real.

Nossa aparência afeta nossa personalidade? Ou é nossa personalidade que afeta nossa aparência? A pintura corporal para a guerra transforma um índio covarde em um guerreiro corajoso? Ou um guerreiro corajoso se pinta para mostrar sua crueldade? Um gato sempre parece um gato? Um rato sempre parece um rato?

Confesso que sou apreciadora de rotinas. Quando o meu dia sai do “normal”, fico extremamente mau humorada e não sei como lidar com o restante dele. E é exatamente isso o que acontece com as duas: já acostumadas com suas novas vidas, com uma aparente paz exterior, algo acontece e elas precisam redefinir tudo o que sentiam, pensavam e faziam até então. Mas as coisas saem totalmente erradas, e a culpa é de quem? Da mãe? Da filha? Das duas, por terem guardado tanto rancor por tanto tempo e terem finalmente se libertado justo agora?

Enquanto alguns acham que Shelley e sua mãe são iguais, eu não consigo concordar. Em alguns momentos, os seus sentimentos se fundem, mas quem causou todos os “transtornos” foi a menina, que tem personalidade mais forte que a mãe. Esta, por sua vez, falhou e acertou ao cuidar da filha, como provavelmente qualquer pai e mãe. A diferença é que Shelley mostrou-se menos tolerante e mais ativa, talvez pelo fato de não ser a progenitora em questão, e de apenas desempenhar um papel de “cuidadora da mãe” quando o medo e incerteza infantis não tomam conta dela.

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Reece também traz a tona diálogos muito reais na relação mãe-filha (o livro é escrito do ponto de vista da menina), com pensamentos verossímeis que poderiam passar pela cabeça dos filhos em relação aos seus pais, sejam eles justos ou não, e em momento algum joga a culpa mais para uma do que para outra, tratando-as como “cúmplices” em tudo: isso é o leitor que decidirá.

Por outro lado, raramente mãe e filha perdem a calma, especialmente a última, e essa frieza pode ser interpretada como resultado de todos maus tratos sofridos por ambas, mas mesmo com a tensão crescente que Reece explora durante os primeiros momentos após o “acontecimento”, ainda sim ela não parece totalmente natural em alguns momentos. E não que o que as duas passaram tenha que ser natural, mas considerando que estamos sob o ponto de vista de uma menina e justamente por todo esse background, raramente uma ou outra saem do controle. É mais compreensível com Shelley, que ainda tem 16 anos e uma visão de mundo menos tridimensional, mas mesmo que a mãe dela tente transparecer calma por ser a adulta e responsável pela casa, além de ter que resolver algo que não foi iniciado por ela, a falta de explosões (que pode ser proposital) só fez aumentar o desespero crescente, mas também fez sentir que faltava algum toque pela parte de Reece ali.

Outro ponto é o fato de que o “acontecimento”, na verdade, ocorre primariamente por uma atitude repentina e “corajosa”, mas o seu desenrolar é um comportamento típico de Rato: fazer o que for menos doloroso, o que chamar menos a atenção, o que menos precisar da presença de outras pessoas. A partir disso a força surgiu, mas isso não significa que as ações que mãe e filha realizaram fossem um sinônimo de terem saído do ostracismo; pelo contrário, a bolha na qual ambas se fecharam continuava lá e elas não queriam que ninguém entrasse. Estando certas ou não.

Mesmo que o bullying sofrido por Shelley seja o ponto de partida e – erroneamente – classificado como o ponto principal da obra, ele serve como pano de fundo para que possamos entender por qual motivo a menina e a mãe agem na madrugada do aniversário de 16 anos da protagonista. Aos poucos os atos crueis ressurgem, apenas na mente do leitor, conforme as decisões são tomadas, as comparações são feitas e as atitudes por fim saem do papel. Esta frase de Macbeth citada no livro é a sua verdadeira profundidade:

De tal modo estou mergulhado no sangue, que, se não for mais adiante, a volta será tão difícil quanto a travessia.

Por fim, Ratos é uma história de perdas contínuas e de alguns ganhos que sucedem-se depois que você está tão afundada que sabe que não tem mais para onde cair. Ao mesmo tempo, deixa um gosto amargo na boca pela transformação passada pelas duas personagens. Ela não foi repentina no sentido de ter surgido apenas durante o baque final. Ela estava lá, emergente, em formas diferentes na mãe e na filha, apenas esperando para sair. E o triste é que enquanto muitas pessoas caem apenas após atos muitos radicais, outras só emergem da mesma forma. E assim foi com Shelley.

Mas viramos o jogo. O gato entrou na toca do rato, mas, dessa vez, o rato o matou.

Gordon Reece é um ilustrador e escritor britânico que vive na Austrália. Ratos (Mice, no original, em inglês), seu primeiro romance, foi publicado em 2010.

Leitura complementar:

Macbeth – William Shakeaspare
Moby Dick – Herman Mellvile