O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel García Márquez)

O amor é o sentimento mais controverso e sem definição clara que podemos encontrar.

Ele também é o que mais desperta outros sentimentos concomitantes: ódio, desprezo, ciúmes e insegurança geralmente andam de mãos dadas com ele, além de patologias físicas, como enjoos, depressão e hipersensibilidade a tudo ao seu redor.

Em Amor nos Tempos do Cólera (“El amor en los tiempos del cólera”, em espanhol), Gabriel García Márquez tenta explorar o tema em uma cidade sem nome do Caribe, nos tempos antes, depois e durante alguns surtos de cólera entre 1880 e 1930. Mas engana-se quem pensa que esta é uma história romântica ou comovente, pois não é. Ela é uma análise de extremos, no qual há amor por toda a parte, mas não necessariamente entre as personagens principais.


O Amor nos Tempos do Cólera

Chega a ser espantoso como alguns escritores possuem o poder de escrever bem. E como sabemos que “escrever bem” é quase sempre subjetivo, posso dizer que o que sinto lendo qualquer coisa que Gabriel García Márquez coloque no papel é uma fluidez tão única que é impossível não notar como ele faz com que as palavras (simples, já adianto) pareçam de fato um instrumento muito bem dominado, mas ao mesmo tempo também as torna tão independentes que não dá para sentir que estamos lendo um livro, é como se a história fosse escrita por si mesma e não por um intermediário humano – você sente como se estivesse vivendo a história junto com as personagens, respirando o mesmo ar, bebendo as mesmas bebidas e pisando nas mesmas calçadas.

E por falar em história, esta gira em torno de Fermina Daza, Juvenal Urbino e Florentino Ariza. Florentino e Fermina se apaixonam quando ela ainda é uma adolescente e ele pouco mais velho. O relacionamento todo ocorre apenas através de cartas, nunca de conversas em pessoa, mas o pai da moça, disposto a fazê-la se casar com um homem rico (coisa que Florentino não é), impõe a ela uma viagem quando descobre a troca de correspondências. Mesmo longe, o casal continua se comunicando, mas o tempo possui consequências, e ao finalmente voltar e reencontrar Florentino, Fermina percebe que não o ama mais (ou que possivelmente nunca o amou) e posteriormente se casa com o rico e influente médico Juvenal Urbino. Florentino não se conforma com o desfecho e obstinadamente coloca na cabeça que um dia ela será sua, mesmo que muitos anos se passem – e é isso o que acontece. Florentino usa o amor que sente por Fermina para estabelecer todo o curso de sua vida, e mais de 50 anos depois ainda a venera como no primeiro dia.

Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração. Mal conseguiu pensar: “Deus meu, pobre homem!” Florentino Ariza sorriu, procurou dizer alguma coisa, procurou acompanhá-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto da mão.
– Não, por favor – disse. – Esqueça. (pgs. 132 e 133)

Publicado em 1985, O Amor nos Tempos do Cólera é uma leitura densa, rica e de ritmo bastante acelerado. Não há o que ser dito em termos de ambientalização ou da falta de ideias do autor – que é mestre em transformar pequenas situações do cotidiano em grandes acontecimentos – mas o livro pecou em diversos pontos, os quais me impediram de dar uma nota à altura da qualidade de escrita apresentada.

Gabo obteve grande êxito ao traçar paralelos entre o amor e diversos outros sentimentos, mas o que ele mais conseguiu ilustrar foi o amor = cólera. E não A cólera, e sim O cólera, causado por uma bactéria chamada Vibrio cholerae. Os seus sintomas são frequentemente comparados aos do amor, e acompanham Florentino por mais de 5 décadas. O amor à moda antiga, aquele em que se ama uma ideia e só se conhece a pessoa amada após o casamento, por si só, não é exatamente o problema aqui. Ariza se apaixona por Fermina, e após ela lhe dar um belo fora (sem motivo aparente para ele), ele agarra-se a essa ilusão de forma muito ferrenha. Seria tudo muito bonito, se não fosse assustador. Não é amor: é obsessão. No livro fica claro que a sua alma gêmea não é Fermina, mas ele simplesmente coloca na cabeça que ela irá se casar com ele um dia, e trabalha a sua vida toda em torno disso: ao vê-la casada com um homem rico, alavanca a sua vida e torna-se um homem de respeito e posses; nunca se casa, mesmo amando esta alma gêmea, porque quer se guardar para Daza; espera pacientemente a morte de seu marido para que um dia fiquem juntos, sem sequer levar em consideração o fato de que ela não quer que isso aconteça.

A memória do passado não redimia o futuro, como ele se empenhava em acreditar. Pelo contrário: reforçava a convicção que Fermina Daza sempre tivera de que aquele alvoroço febril dos vinte anos tinha sido alguma coisa muito nobre e bela, mas amor, não. (p. 393)

Essa insistência, em princípio bela, vai perdendo a beleza e apenas tornando-se algo não tão nobre: é como se Florentino não pudesse admitir essa derrota. Ao longo da vida, inclusive, teve dezenas de amantes, e sempre se prostrava com a última palavra, sempre pronto a ser ele a dizer adeus. O fato de Fermina ter sido a única a lhe negar o seu amor pode ser um dos motivos que o fez ficar tão obstinado por ela. E por falar em amantes, com muitas delas Gabo acerta a mão, e é muito mais interessante lermos sobre algumas relações que Ariza possui com elas do que quando ele reitera que é à Fermina que seu coração pertence.

Fermina, por sua vez, é uma mulher de personalidade fortíssima e que por isso mesmo não pestaneja ao dispensar Florentino logo no início do livro. Vive uma vida na qual o amor que sente pelo marido é somente dela. Há a impressão de que esse amor nasceu por causa dele, mas que não perdurou, e que ele estar ali é somente um símbolo de um sentimento diferente que não tem dono: os dois se acostumam e passam a amar as suas rotinas juntos. A estranheza a tudo fora delas é confundida com as saudades que sucedem uma partida ou briga com a pessoa amada. Este tema (o conformismo na relação/rotina/medo de novas coisas) é tecido de forma majestosa pelo autor no casamento dos dois, com os pequenos detalhes de uma vida conjunta tecidos tão familiarmente que chega a surpreender. Ainda assim, você não consegue ficar feliz ou se sentir nostálgico: apenas se sente triste por aparentemente não haver amor entre nenhum casal durante toda a leitura do livro. São sempre outros sentimentos, sejam eles bons ou ruins, que permeiam a obra.

O problema de tudo isso é o fato de que não há como pensar que um homem como Florentino está apaixonado por alguém, ao contrário do que o livro quer nos convencer. Ele ama muito a si próprio, e é obstinado em vencer. Não teve uma infância fácil, pois nunca foi um playboy que tinha tudo na mão, além de não ter ambições grandiosas antes de Fermina se casar com outra pessoa, mas usou isso como desculpa e inspiração até o fim. Da mesma forma que o casamento de Daza e Doutor Juvenal era semeado por um amor à rotina, na cabeça de Ariza, ele e seu amor por Fermina eram a sua rotina, o seu descanso, o seu consolo. Julgou amar sozinho por 50 anos, e assim o fez; mas somente à ideia do que poderia ser o amor, e não a pessoa amada em si. E foi somente ali que os dois entraram em sincronia: sem saber, o amor interrompido de ambos terminou com uma vida inteira sem amor nenhum para eles.

“Você nem repara como sou infeliz.”
Ele tirou os óculos com um gesto muito seu, sem se alterar, inundou-a com as águas diáfanas de seus olhos pueris, e numa só frase atirou-lhe em cima o peso de sua sapiência insuportável: “Lembre sempre que o mais importante num bom casamento não é a felicidade e sim a estabilidade”. Desde suas primeiras solidões de viúva ela compreendeu que a frase não escondia a ameaça mesquinha que lhe havia atribuído em seu tempo, e sim a pedra de toque que a ambos proporcionara tantas horas felizes. (p. 372)

Florentino não pode ser considerado um Heathcliff (O Morro dos Ventos Uivantes), pois é bem menos extremo, mas, novamente, a problemática em si não é uma personagem como ele existir, e sim o autor querer nos convencer de que essa devoção toda dele é muito bonita. Não é bonito espionar uma pessoa que você mal conhece por 50 anos; não é bonito receber uma garotinha para tutorar e já iniciar uma vida sexual com ela – e largá-la como se não fosse nada, esperando que ela compreenda, como uma adulta, que a relação deles era meramente casual; não é bonito querer alguém para cuidar de você quando envelhecer (existem cuidadoras/cuidadores de idosos no mercado que fazem exatamente isso); não é bonito invadir o funeral do marido da pessoa amada e se declarar para ela lá, sem respeito algum aos sentimentos da pessoa; não é bonito ser racista; não é bonito supor que a pessoa irá se casar com você imediatamente só porque VOCÊ julga amar demais e é claro que a pessoa vai perceber isso e vai te amar de volta e vai achar lindo; não é bonito levar fora por 50 ANOS e continuar insistindo; não é bonito desejar a morte de alguém para que você possa tomar o lugar dela; não é bonito nunca ter tido uma família e começar a se sentir bem com uma que não te pertence; não é bonito ser estuprada e ter gostado porque o cara te pegou de jeito. E por aí vai.

Mesmo se Gabo quisesse demonstrar como Florentino era louco, o final deslegitima toda a crítica. A recompensa por 53 anos, sete meses e onze dias de espera, pelo menos para mim, soa apenas como um gran finale falho. Florentino nunca amou Fermina, que foi dividida em duas: a menina que ele mal conheceu e a mulher cuja imagem ele alimentou por 5 décadas e que viveu à margem de sua vida, escondida, como uma desculpa para que ele não se comprometesse com nada – uma desculpa para a sua apatia natural pela vida. O reencontro dos dois, após tanto tempo, foi tão emocionante quando uma pasta aplicada para tapar algum buraco: visualmente correto por fora, mas provavelmente oco por dentro.

(…) tinha o pulso tênue, a respiração rascante e os suores pálidos dos moribundos. Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em nenhuma parte, e a única coisa que sentia de concreto era uma necessidade urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ele e depois à mãe para comprovar uma vez mais que os sintomas do amor são os mesmo do cólera. (p. 82)

Gabriel García Márquez, o Gabo, foi um prolífico escritor colombiano e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, ícone do realismo e do realismo fantástico. Escreveu seis romances, quatro novelas e diversos contos e trabalhos de não-ficção.

  • A minha edição é a mais recém-impressa pela Record em 2014, com tradução de Antonio Callado.